Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: O Homem que Parou de Arquivar o Mundo Ele percebeu o começo da mudança no momento em que não conseguiu mais lembrar se estava lembrando ou apenas vivendo. Não foi um evento dramático. Não houve ruptura visível. Apenas uma leve hesitação interna, como se algo que sempre funcionou sozinho tivesse deixado de precisar de esforço para continuar funcionando — e, ao mesmo tempo, tivesse perdido a necessidade de ser percebido como funcionamento. Ele estava sentado perto da janela. A luz entrava do mesmo jeito que sempre entrou. Mas havia algo estranho na relação entre a luz e o que ele chamava de “percepção da luz”. Antes, havia dois gestos. Ver e saber que via. Agora parecia haver apenas um único movimento sem borda clara. Ele tentou nomear isso. “Concentração”, pensou. Mas a palavra não colou. Não porque estivesse errada — apenas porque chegou tarde demais. Ele levantou e foi até a ...
Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de poema por aqui. Vem conferir! Poema: O Eu Encarnado O eu encarnado não é mentira, mas também não é verdade final. É aparato. É nome provisório. É aparência suficiente para percorrer o mundo. Serve para amar. Errar. Trabalhar. Desejar corpos. Sentir medo. Sentir prazer. Serve para viver. Mas não é quem vive. O eu encarnado nasce para atuar, não para continuar. É um cargo temporário assumido pela consciência enquanto dura o corpo. Por isso sofre quando quer ser eterno. Por isso cansa quando se acredita absoluto. Quando lembrado como função, relaxa. Quando abandonado como identidade, silencia. Nada nele precisa ser salvo, porque nada nele é crucial. E ainda assim — tudo nele é necessário. O eu encarnado é a ligação, não o destino. É a roupa do sentir, não o sentir. É a voz, não o que escuta. Quando cair, não haverá perda — apenas término de uso. O que foi inquestionável não vestia o eu. O que foi vivido ...