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Conto: Canção Noturna

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: Canção Noturna I A noite me encontrou nu, tanto na pele quanto na alma. O ar denso da cidade parecia colar-se ao meu corpo, cada som distante vibrando dentro do meu peito como um lembrete de que o mundo continuava girando, indiferente ao meu desejo. Ela chegou sem aviso, e, no instante em que nossos olhares se cruzaram, senti o peso do inevitável: a carnificina de todos os meus autocontroles. Minhas mãos a buscaram antes mesmo da voz, traçando o contorno do seu ombro, deslizando por sua nuca, descobrindo cada linha como se fossem mapas remotos e proibidos. O cheiro dela invadia meus pulmões, e eu me perdi, completamente, sem resistência. O frio da noite contrastava com o calor que acendia minha pele, fazendo meu corpo inteiro vibrar em expectativa e medo. Quando nossos lábios se tocaram, não havia doçura. Havia urgência, quase violência, um consumo que não podia ser retardado....

Conto: Canção Noturna

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: Canção Noturna



I



A noite me encontrou nu, tanto na pele quanto na alma. O ar denso da cidade parecia colar-se ao meu corpo, cada som distante vibrando dentro do meu peito como um lembrete de que o mundo continuava girando, indiferente ao meu desejo. Ela chegou sem aviso, e, no instante em que nossos olhares se cruzaram, senti o peso do inevitável: a carnificina de todos os meus autocontroles.

Minhas mãos a buscaram antes mesmo da voz, traçando o contorno do seu ombro, deslizando por sua nuca, descobrindo cada linha como se fossem mapas remotos e proibidos. O cheiro dela invadia meus pulmões, e eu me perdi, completamente, sem resistência. O frio da noite contrastava com o calor que acendia minha pele, fazendo meu corpo inteiro vibrar em expectativa e medo.

Quando nossos lábios se tocaram, não havia doçura. Havia urgência, quase violência, um consumo que não podia ser retardado. Cada toque era uma confissão: os corpos se dobravam, se rendiam, se destruíam e se reconstruíam em segundos que pareciam eternos. A decadência do prazer nos tornava primitivos, selvagens, e mesmo assim havia beleza — a beleza crua de seres humanos despidos de máscaras, entregues à necessidade.

Ela suspirava, e meu nome saía de seus lábios como se fosse uma sentença, e eu, por minha vez, grunhia e arfava, enquanto os dentes se misturavam à pele, enquanto os dedos buscavam mais, sempre mais, como se o próximo instante pudesse ser o último. A luxúria se tornava vertigem, e a vertigem se tornava lembrança de que estávamos vivos, mesmo que de forma tão brutal e efêmera.

No chão da sala, entre lençóis revirados e copos suados, senti o gosto do próprio excesso. Rimos, quase inconscientes, sabendo que estávamos nos consumindo, que nada do que viesse depois poderia apagar o que aconteceu naquela noite. E ainda assim, no silêncio que sucedeu a tempestade, o peso da carne, do desejo, do nosso abandono, permaneceu. Eu estava inteiro, e, ao mesmo tempo, destruído.



II



A noite se prolongava como um manto espesso, envolvendo cada canto do quarto e refletindo sombras nas paredes. Ela ainda respirava ao meu lado, quente, inquieta, e meus dedos não conseguiam se afastar — precisavam percorrer cada centímetro, como se cada toque fosse a única forma de garantir que a realidade não escapasse. A cidade lá fora continuava indiferente, indiferente aos corpos que se dobravam, que se consumiam, que se entregavam à necessidade sem qualquer misericórdia.

Meus lábios encontraram a curva do seu pescoço, e um arrepio percorreu sua espinha, um grito silencioso que só nós poderíamos ouvir. Havia nesse gesto a vertigem de quem se entrega sem saber se haverá amanhã, a frustração e o êxtase misturados em uma só chama. Cada suspiro, cada gemido, se transformava em uma repetição dentro do meu peito, acelerando meu coração até que o mundo se resumisse ao calor da pele dela contra a minha.

Os lençóis, amassados, tornaram-se o mapa de nossa rendição. Minhas mãos exploravam sem pudor, os dedos desenhando trajetórias sobre a pele que conhecia de olhos fechados, que ainda assim me surpreendia a cada toque. O cheiro dela, intenso e intoxicante, enchia meus sentidos, e eu me perdia — completamente, sem nada que pudesse me ancorar. Era uma decadência bonita, terrível, humana demais para ser ignorada.

A cada instante, o mundo lá fora desaparecia. Havia apenas nós, a urgência do desejo, e a consciência quase dolorosa de que aquilo era efêmero. O prazer se misturava à dor de um abandono consciente, à vertigem de existir plenamente naquele instante que poderia não se repetir. Entre sussurros, mordidas, toques desesperados, percebíamos a própria fragilidade e, paradoxalmente, a força que nascia do nosso consumo mútuo.

Quando a exaustão finalmente nos tomou, ainda permanecia a sensação de intensidade — não só do corpo, mas do espírito. Estávamos despidos, não só fisicamente, mas emocionalmente, como se todas as máscaras tivessem sido arrancadas sem aviso. O rastro do desejo permanecia, e a consciência do momento vivido queimava mais do que qualquer cicatriz que pudesse surgir. Nos olhamos, respirando com dificuldade, e por alguns segundos, a decadência se transformou em silêncio profundo, quase sagrado, onde reconhecíamos que tínhamos vivido o absoluto: a entrega total, sem reservas, sem arrependimentos.




FINAL



O quarto parecia se expandir e contrair ao ritmo de nossos corpos, como se respirasse conosco. Cada toque queimava e ao mesmo tempo reconfortava. A respiração dela era um sussurro que se infiltrava em mim, provocando arrepios que subiam pela espinha e me tornavam cego para qualquer coisa além daquele instante.

Havia algo de animal em nós — não a selvageria cega, mas a consciência plena do corpo que deseja, que exige e que se entrega sem perguntas. Eu percorria cada curva como quem decifra um enigma antiquado, minhas mãos explorando e, ao mesmo tempo, oferecendo. Cada reação dela me guiava, cada suspiro me revelava segredos que a mente jamais poderia compreender.

O cheiro, o calor, o som — tudo se misturava em uma sinfonia quase insuportável de sensações. Senti minha própria fragilidade exposta, reconhecendo que, mesmo no domínio do corpo, éramos frágeis, humanos, transitando entre a dor e o prazer. O desejo era um fio de fogo que nos atravessava, e o medo do desconhecido, longe de afastar-nos, tornava cada toque mais profundo, mais urgente. Ela se curvava sob meu toque, e eu sentia a própria pele reagir, como se cada impulso fosse um lembrete de que a carne não mente: o que sentimos é real, cruel e magnífico.

Meu olhar percorria cada detalhe — tatuagens, cicatrizes, contornos que contavam histórias silenciosas. Cada linha da sua pele era um mapa, e cada reação, um segredo. A presença dela despertava vertigens que eu julgava já conhecidas, mas que agora se mostravam infinitamente mais complexas. Havia algo de ritualístico em nossa entrega, um pacto mudo entre corpo e espírito, entre passado e presente.

Em um momento, paramos. O quarto estava mergulhado em sombras dançantes, e nossos olhos se encontraram. Um silêncio denso nos envolvia, onde palavras eram inúteis. Cada respiração era carregada de intensidade, e o ar parecia vibrar com a energia que emanávamos. A carne se fundia com o etéreo, e por instantes, pude tocar o invisível através dela — como se a humanidade se diluísse e restasse apenas a essência do desejo e da conexão.

O tempo parecia curvar-se ao redor de nossos corpos. Cada toque ressoava como uma ressonância em dimensões que não pertenciam a este mundo. A vulnerabilidade se transformava em poder; o prazer, em contemplação; a presença, em revelação. Não havia somente sexo: havia transformação, uma passagem silenciosa para algo maior, algo que ultrapassava a lógica e a ciência.

A cada movimento, cada gemido contido, cada arrepio, sentia a fusão de forças opostas — a terra e o espírito, a força e a fragilidade. Havia uma dança ancestral e invisível acontecendo ali, que só nós éramos capazes de perceber. Era o limiar entre mundos, o instante em que o terreno e o etéreo se tocavam e criavam algo único, indestrutível, eterno.

Quando o cansaço finalmente nos encontrou, permanecemos abraçados, corpos entrelaçados e respirações sincronizadas. No silêncio que se seguiu, percebi que o que vivemos não era apenas físico: era alquimia. Um encontro de mundos, de tempos, de forças que só se revelam a quem ousa entregar-se completamente. 



É isso! Até a próxima!




Autoria: Luciano Otaciano 

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