LIVRO: TENDA DOS MILAGRES
ANO DE LANÇAMENTO: 2008
AUTOR: JORGE AMADO
EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS
NÚMERO DE PÁGINAS: 320
CLASSIFICAÇÃO: ☆☆☆☆☆
Sinopse: Na Tenda dos Milagres, na ladeira do Tabuão, em Salvador, onde o amigo Lídio Corró mantém uma modesta tipografia e pinta quadros de milagres de santos, o mulato Pedro Archanjo atua como uma espécie de intelectual orgânico do povo afro-descendente da Bahia. Autodidata, seus estudos sobre a herança cultural africana e sua defesa entusiástica da miscigenação abalam a ortodoxia acadêmica e causam indignação entre a elite branca e racista. A história é contada retrospectivamente, em dois tempos. Em 1968, a passagem por Salvador de um célebre etnólogo americano admirador de Archanjo desencadeia um revival de sua vida e obra. Para a comemoração do centenário de nascimento do herói redescoberto, arma-se todo um circo midiático. Contrapondo-se a essa apropriação política da imagem de Archanjo, sua trajetória é narrada paralelamente como foi preservada na memória do povo: os amores, as polêmicas com os luminares da universidade, os confrontos com a polícia. Ao contar a história desse herói complexo, também conhecido como "Ojuobá, os olhos de Xangô", Jorge Amado traça um painel da cultura negra baiana e de sua resistência contra a repressão violenta a que foi submetida nas primeiras décadas do século XX, resgatando e exaltando manifestações como o candomblé, a capoeira, os afoxés e o samba de roda. Escrito em 1969, com a verve e a sensualidade habituais do autor, Tenda dos Milagres atesta seu amor à cultura afro-brasileira e seu humanismo radicalmente libertário. Foi adaptado com sucesso para o cinema, por Nelson Pereira dos Santos, e para a televisão, como minissérie da Rede Globo. Além do posfácio do historiador João José Reis, a nova edição traz ainda cronologia e caderno de imagens com fotografias, ilustrações e capas de edições estrangeiras do romance.
Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de resenha por aqui. Vem conferir!
TENDA DOS MILAGRES é uma obra vibrante e multifacetada de Jorge Amado que mergulha nas profundezas da cultura popular baiana, explorando temas de identidade racial, preconceito, sabedoria ancestral e a eterna luta entre o conhecimento oficial e a vivência do povo. O livro se desenrola em torno da figura lendária de Pedro Archanjo, um "mestre baiano" autodidata, bedel da Faculdade de Medicina e autor de obras sobre a miscigenação e os costumes da Bahia, cuja genialidade só é reconhecida postumamente, e de forma controversa. A narrativa é desencadeada pela chegada de James D. Levenson, um renomado professor norte-americano e Prêmio Nobel, que "descobre" a obra de Pedro Archanjo e a eleva ao patamar internacional. Essa "descoberta" provoca uma série de eventos na Bahia, desde a organização de um centenário em homenagem a Archanjo até a apropriação de sua figura por diversos setores da sociedade – acadêmicos, políticos e até mesmo publicitários. O livro é construído com uma riqueza de vozes e perspectivas. Fausto Pena, um poeta e sociólogo encarregado de pesquisar a vida de Archanjo para Levenson, serve como um dos narradores, revelando as dificuldades em conciliar as múltiplas e muitas vezes contraditórias versões sobre o mestre. Através de depoimentos, artigos de jornal, poemas populares e memórias de personagens como Lídio Corró (o "riscador de milagres" e amigo de Archanjo), Major Damião de Souza (o "Rábula do Povo"), e a condessa Zabela, a figura de Pedro Archanjo é desvendada em sua complexidade. A Miscigenação como Essência Brasileira: Pedro Archanjo é o grande defensor da mestiçagem, que ele vê como a verdadeira face do povo brasileiro e a base de sua cultura. Suas obras e sua própria vida são um testemunho contra as teorias racistas da elite acadêmica, representadas por figuras como o professor Nilo Argolo, que consideram a mistura de raças como um sinal de degeneração. Conflito entre Saberes: O livro expõe o embate entre o conhecimento acadêmico, muitas vezes elitista e preconceituoso, e a sabedoria popular, transmitida oralmente e vivenciada nas ruas, nos terreiros de candomblé e nas festas. Archanjo, um homem do povo, é o elo entre esses dois mundos, mas sua autenticidade é constantemente desafiada e distorcida.
Resistência Cultural e Social: A obra celebra a resiliência da cultura afro-brasileira diante da repressão policial e do desprezo das classes dominantes. As descrições das rodas de capoeira, dos candomblés, dos afoxés e das festas populares são vívidas e mostram a força de um povo que, apesar das adversidades, mantém suas tradições e sua alegria de viver. Apropriação e Distorção da Memória: A chegada de Levenson, embora traga reconhecimento, também expõe a facilidade com que a figura de Archanjo é manipulada e adaptada para servir a diferentes agendas – seja para promover campanhas publicitárias, justificar teorias políticas ou simplesmente para fins comerciais. A "glória" póstuma de Archanjo é, muitas vezes, uma versão higienizada e conveniente de sua vida e obra. A Bahia como Personagem: Salvador, com suas ladeiras, seus mercados, seus terreiros e sua gente, é mais do que um cenário; é um personagem vivo que pulsa com a energia e a diversidade que Amado tão bem retrata. Jorge Amado emprega sua prosa característica, rica em oralidade, humor e sensualidade. A linguagem é coloquial, permeada por expressões baianas e referências à cultura afro-brasileira. O autor utiliza uma estrutura narrativa não linear, com saltos no tempo e múltiplas vozes, que enriquecem a complexidade da história e refletem a natureza fragmentada da memória e da verdade. Elementos de realismo mágico se entrelaçam com a realidade social, conferindo à obra um tom único e envolvente. "Tenda dos Milagres" é uma poderosa celebração da identidade brasileira, forjada na mistura de raças e culturas. É um livro que questiona a autoridade do saber instituído, denuncia o preconceito e exalta a riqueza da cultura popular. Através da figura inesquecível de Pedro Archanjo, Jorge Amado nos convida a refletir sobre o que significa ser brasileiro e a valorizar as raízes que moldam nossa nação. Uma leitura essencial para quem busca compreender a alma da Bahia e a complexidade da formação cultural do Brasil. É isso! Até a próxima!

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