Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de poema por aqui. Vem conferir!
Poema: Enquanto a Alma Me Escapava Pelos Meus Olhos
Foi durante a noite.
Ou melhor foi durante a ausência de mim.
Quando o sono não me carregava, mas sim me cuspia para fora do corpo, feito alguém que nunca pertenceu à própria carne.
Eu me vi.
Sim — me vi deitado.
Pálido.
Imóvel.
Vazio.
Como se a morte ensaiasse o meu corpo em silêncio.
Meu espírito, ou sei lá o quê, flutuava por cima de mim como uma dor que não cabe.
E eu sentia o peso do invisível me atravessando, como uma presença que não tinha nome mas me conhecia melhor que qualquer humano.
Eu quis voltar.
Mas não sabia como.
Havia um medo absurdo de nunca mais habitar o corpo.
Um medo que grita sem boca, que implora sem voz.
E não havia ninguém para me chamar de volta.
Só o escuro.
Só o frio.
Só a verdade nua de que há dimensões que não respeitam relógios, leis, religiões ou lógicas.
Eu voltei.
Aos trancos e barrancos.
Com a alma ferida.
Como quem volta de um lugar onde não devia ter ido — mas foi, porque carrega dentro de si uma antena partida, um dom maldito, uma sensibilidade que sangra.
Sou médium, dizem.
Sou ponte, dizem também.
O mundo já tem os rótulos pra mim, à espera que eu o agarre.
Sou espaço por onde o invisível caminha.
Mas isso me atormenta.
Isso me desloca.
Isso me condena aos olhos cegos de um mundo que teme tudo o que não consegue dominar.
Um mundo doente e ignorante que me julga sem conhecer minha história.
Eu não escolhi isso.
Mas isso me escolheu.
E agora, cada vez que fecho os olhos para dormir, me pergunto se minha alma voltará inteira, ou se um pedaço dela ficará preso na escuridão que também me ama.
E assim sigo na existência terrena que é viver.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
Bravíssimo meu caro amigo! Abraço
ResponderExcluirObrigado amigo. Abraço!
ExcluirLuciano,
ResponderExcluirteu texto é um mergulho corajoso numa experiência limite, daquelas que desorganizam a linguagem e obrigam a escrita a tatear o indizível. Há nele uma lucidez dolorosa, um corpo observado de fora, uma alma que volta ferida, mas consciente demais. Tocou-me especialmente essa ideia de ser ligação sem ter escolhido sê-lo o peso de sentir além, num mundo que prefere rótulos ao mistério. Teu relato não pede explicações; ele pede escuta. E fica, inquietante e verdadeiro, como ficam as experiências que nos atravessam para sempre.
Abraço
Fernanda
Oi, Fernanda! Experiências assim marcam pra sempre, especialmente quando não há preparo adequado pra isso, não? Abraço!
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