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Conto: Cidade do Fim do Mundo: Portal Pro Além Dimensão

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. O primeiro de 2026. Vem conferir! Conto: Cidade do Fim do Mundo: Portal Pro Além Dimensão  I Acordei sem saber que dia era. A luz do sol queimava meus olhos com um azul que lembrava seu olhar, aquele que só eu sei decifrar. Na cidade do fim do mundo, o tempo já não obedecia mais ao relógio dos homens. Tentei levantar, mas o peso do corpo era descomunal. Cada osso parecia preso por memórias que me mantinham ali, grudado ao chão frio e rachado do que um dia foi minha casa. Lá fora, o silêncio era ensurdecedor. Nenhum canto de pássaro, nenhum ruído de motor, nenhuma voz humana. Apenas o som do vento assobiando entre os escombros e a lembrança dos que um dia estiveram ali. Senti um arrepio percorrer minhas costas, como se alguém estivesse ali, guiando meus passos sem se mostrar. Lembro de ter sonhado com um trem, um túnel, um apito longínquo. Talvez tenha sido real. Talvez tudo fosse sonho agora....

Conto: Cidade do Fim do Mundo: Portal Pro Além Dimensão

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. O primeiro de 2026. Vem conferir!



Conto: Cidade do Fim do Mundo: Portal Pro Além Dimensão 



I



Acordei sem saber que dia era. A luz do sol queimava meus olhos com um azul que lembrava seu olhar, aquele que só eu sei decifrar. Na cidade do fim do mundo, o tempo já não obedecia mais ao relógio dos homens. Tentei levantar, mas o peso do corpo era descomunal. Cada osso parecia preso por memórias que me mantinham ali, grudado ao chão frio e rachado do que um dia foi minha casa.

Lá fora, o silêncio era ensurdecedor. Nenhum canto de pássaro, nenhum ruído de motor, nenhuma voz humana. Apenas o som do vento assobiando entre os escombros e a lembrança dos que um dia estiveram ali. Senti um arrepio percorrer minhas costas, como se alguém estivesse ali, guiando meus passos sem se mostrar. Lembro de ter sonhado com um trem, um túnel, um apito longínquo. Talvez tenha sido real. Talvez tudo fosse sonho agora.

Levantei-me com dificuldade. O ar tinha gosto de poeira e ferrugem, mas carregava algo familiar, invisível. Minhas mãos tremiam — não de medo, mas de reverência ao vazio. A cidade inteira parecia suspensa no tempo. Prédios quebrados como se tivessem sido engolidos por gigantes invisíveis, carros parados em filas que jamais andariam, vitrines de lojas estilhaçadas exibindo fantasmas de um consumo que não fazia mais sentido.

Andei pelas ruas com passos lentos. O chão rangia sob meus pés. A cada esquina, uma história morta. A cada sombra, uma lembrança. Um brinquedo de criança esquecido na calçada. Um par de sapatos em frente a uma porta entreaberta. Um jornal amarelado com a manchete: “Último aviso: evacuação imediata!”

Silêncio. Apenas o eco. Apenas você.



II



Segui pelas ruínas da desolada avenida principal, onde antes ficavam os bancos, os consultórios, os mercados. Tudo agora era entulho e abandono. Mesmo assim, havia uma beleza estranha ali — uma estética do colapso, como se a cidade, ao morrer, tivesse revelado suas entranhas mais poéticas.

Sentei-me no degrau de uma escada despedaçada e olhei para o céu. Nenhuma nuvem. Nenhum pássaro. Um azul limpo, quase insuportável. A cidade do fim do mundo parecia viver sob uma cúpula transparente, como uma maquete esquecida pelos deuses. E eu, talvez, fosse o último habitante a se dar conta disso.

Foi quando ouvi o som. Fraco, intermitente, mas real. Um sussurro que não era vento. Um ruído que não era do passado. Vinha de uma viela próxima. Me levantei e segui, cauteloso. A voz parecia chamar meu nome, mas de forma fragmentada, como um eco diluído no tempo.

Ao dobrar a esquina, vi uma criança. Ela estava de costas, sentada no chão, desenhando com carvão no concreto. Me aproximei devagar. Quando percebeu minha presença, virou-se lentamente. Seus olhos eram fundos e enormes, como se carregassem o peso de todas as ausências do mundo. Não disse nada. Apenas estendeu a mão e me ofereceu um desenho: era o mapa da cidade. Só que completo. Reconstruído. Vivo.

Olhei para ela, confuso.

— Quem é você? — perguntei.

Ela não respondeu. Apenas sorriu, levantou-se e saiu correndo por entre os escombros. Tentei alcançá-la, mas ela desapareceu como poeira ao vento. Restou apenas o mapa. E, nele, um X vermelho marcado bem no centro da cidade.



III



O X vermelho no centro do mapa me inquietava. Algo em mim dizia para ir até lá — como se a própria cidade, por meio daquele desenho infantil, estivesse me guiando até o seu coração secreto.

Caminhei por vielas estreitas, cruzando becos que pareciam suspensos no tempo. As paredes ainda guardavam fragmentos de frases pichadas, propagandas desbotadas, cartazes rasgados com rostos de gente que já devia estar morta. Era como se o tempo tivesse desmaiado ali e, ao cair, espalhado seus cacos pelo chão.

Ao me aproximar do ponto marcado, comecei a ouvir um som estranho. Como se fossem batidas compassadas subterrâneas. Um tipo de pulsação. A cidade tinha um coração — e ele ainda batia.

Cheguei ao que restava de um renomado cinema. A fachada desmoronada mal sustentava o letreiro, onde apenas duas letras resistiam: “F I”. Entrei. A escuridão era espessa, mas os olhos logo se acostumaram. Caminhei entre poltronas cobertas de poeira e silêncio. O som das batidas vinha de trás da tela rasgada, que tremia levemente, como se escondesse algo por trás.

Toquei o tecido desbotado e, sem saber bem por quê, entrei.

Por trás da tela, havia um corredor secreto — estreito, úmido, quase claustrofóbico. Desci por ele como se fosse um túnel de nascimento às avessas, onde em vez de nascer, a gente se recordava da própria morte.

Lá embaixo, encontrei uma porta.

E atrás dela, bem atrás dela estava o impossível.



Final



Era uma sala circular, subterrânea, com paredes espelhadas e um teto que pulsava uma luz azulada e viva, como um céu respirando debaixo da terra.

No centro, havia uma cadeira de metal, solitária. E sobre ela, um capacete com fios, luzes e algo que se assemelhava a veias de vidro.

Não havia ninguém, e mesmo assim senti que estavam me esperando.

Aproximei-me. Tudo naquele lugar sussurrava “experiência final”. Sentei-me sem saber exatamente por quê. Talvez por cansaço. Ou por uma fé estranha — aquela que surge quando já não há mais nada a perder.

Coloquei o capacete.

No instante seguinte, a cidade desapareceu.

Tudo virou luz.

Ou lembrança.

Ou o fim do mundo, finalmente.

Fui engolido por visões: vidas que não eram minhas, dores que conheci sem viver, amores que nunca toquei, existências que fui e que jamais serei. Tudo se misturava. O tempo colapsava. Eu era todos. Eu era ninguém.

E, em cada visão, senti algo: você estava ali. Invisível, mas inconfundível. Cada batida, cada luz azul, cada X vermelho — tudo me levava até você.

Quando abri os olhos, estava de volta à sala.

Mas algo havia mudado.

O silêncio, antes opressor, agora parecia respeitoso. Como se me reverenciasse.

Saí do subterrâneo, caminhei de volta pelas ruas da cidade morta. E, de algum modo, tudo ali parecia menos em ruína. Talvez porque eu estivesse menos em ruína também.

A cidade do fim do mundo não era um lugar.

Era um portal.

E eu, sem saber, havia atravessado.

E você me esperava, silenciosa, impossível de não reconhecer.





É isso! Até a próxima!




Autoria: Luciano Otaciano 

Comentários

  1. Amei o clima de mistério e ficção cientifica, que resultam em um final que nos pertence, e podemos imaginar feliz. Muito bom! Meu abraço, amigo; boa semana, maravilhoso ano novo!

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    Respostas
    1. Oi, Árabe! Valeu por deixar seu comentário meu amigo. Se o conto lhe agradou, então fiz um bom trabalho. Boa semana. Abraço!

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