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Entre Fulgor e Abismo, Sigo

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de refletir por aqui. Vem conferir! Entre Fulgor e Abismo, Sigo Na quietude da manhã, quando o mundo ainda parece suspenso, há um silêncio que acolhe — como se o tempo se curvasse só para nos ouvir. Nesse instante de quase nada, pensamentos se movem devagar, como folhas levadas pelo vento, carregando sonhos, medos e pequenas promessas que ainda não se cumpriram. Caminhar entre convicção e escuridão é um ato constante de coragem. É seguir mesmo sem mapa, confiar mesmo sem certezas. Cada passo é como um gesto íntimo de fé no que não se vê, no que só se sente. A vida, nesse vai e vem de momentos, é feita de encontros que nos marcam e de despedidas que silenciosamente nos transformam. Há sorrisos que nos aquecem por dentro e lágrimas que limpam o que doía em silêncio. E no meio disso tudo, carrego um desejo no peito — às vezes chama viva, às vezes brasa discreta — mas sempre ali, como lembrança de que sou feito de luta ...

Conto: O Dia em que o Céu Desceu

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: O Dia em que o Céu Desceu



1



Ninguém percebeu no início.

Não porque não estava acontecendo.

Mas porque parecia impossível.

O céu estava mais claro.

Não azul. Mais claro do que o azul deveria ser.

Alguns disseram que era só o calor.

Outros nem olharam. A vida continuou.

Mensagens. Trânsito. Pequenas preocupações.

Até que alguém percebeu. O sol não estava maior.

Mas estava mais próximo. Não no espaço.

Na sensação. Como se ocupasse mais do que deveria.

E então veio o silêncio. Não externo. Interno.

Como se, por um instante, todas as distrações tivessem perdido força.

E ali — sem explicação — veio o reconhecimento.

Não de morte. Mas de fim.

Um fim que não seria evitado.

E, pela primeira vez, ninguém tentou resolver.

Não havia o que fazer. E isso quebrou algo profundo.

Porque a humanidade sempre viveu com a ideia de tempo.

Planos. Futuro. Continuidade.

Mas agora — isso não existia mais. O sol continuava ali.

Mas não como antes. Não distante. Não neutro.

Mas presente. Impossível de ignorar. Alguns choraram. 

Outros riram. Alguns ainda tentaram explicar.

Mas, no fundo, todos sabiam. Não havia erro.

Não havia solução. Não havia amanhã suficiente.

E então algo inesperado aconteceu.

Sem aviso. Sem acordo. As pessoas começaram a parar.

Não morrer. Parar. Como se algo dentro delas tivesse entendido antes da mente.

Conversas cessaram. Preocupações desapareceram.

E, pela primeira vez — não por escolha —

mas por falta de alternativa — a humanidade inteira esteve presente.

Sem passado. Sem futuro. Apenas ali.

O calor aumentava. O céu deixava de ser céu.

E, naquele instante final — não houve desespero coletivo.

Houve algo mais estranho. Uma espécie de clareza.

Como se, no limite absoluto, tudo tivesse finalmente parado de resistir.

E talvez — só talvez — aquele não fosse apenas o fim do mundo.

Mas o fim da distração. E ninguém estava preparado para o que existe quando não há mais nada para evitar.




2



O Primeiro Atraso.  No começo, foi quase nada.

Um atraso. Não de horas. De segundos.

Relógios ainda funcionavam. Mas algo não encaixava.

As pessoas chegavam “no horário”. Mas sentiam que já estavam atrasadas.

Sem saber do quê. Conversas começavam com pequenas pausas.

Como se algo tivesse sido perdido antes mesmo de começar.

Ninguém comentou. Porque não havia o que apontar.

E, ainda assim — tudo parecia levemente fora do lugar.

Como se o tempo tivesse deslizado e ninguém tivesse visto.

O calor sem origem. Não era o sol. Pelo menos, não parecia ser.

O calor não vinha de cima. Nem de fora.

Ele vinha de dentro das coisas. Paredes. Asfalto.

Corpos. Como se tudo estivesse aquecendo por conta própria.

As pessoas suavam paradas. Respiravam mais devagar.

Não por cansaço. Mas porque o ar parecia mais denso.

E então alguém disse: “isso não é normal”

Mas a frase não se sustentou. Porque, naquele ponto — nada mais parecia normal o suficiente para comparação.

Os celulares continuavam funcionando.

Sinal cheio. Internet estável. Mas algo estranho começou a acontecer.

As pessoas escreviam e paravam. Não porque não sabiam o que dizer.

Mas porque, de repente, nada parecia importante o suficiente para ser dito.

Mensagens longas foram apagadas. Palavras reduzidas a quase nada.

E, em muitos casos — nem isso. A comunicação não falhou.

Ela perdeu sentido. Como se, pela primeira vez, falar não mudasse absolutamente nada.

E isso foi entendido sem precisar ser explicado.

O céu ainda estava lá. Mas não parecia distante.

Não parecia infinito. Parecia próximo demais.

Como uma superfície. Como se pudesse ser tocado se alguém tentasse.

As pessoas olharam mais. Mas não por curiosidade.

Por necessidade. Algo no céu havia mudado.

Não na forma. Mas na relação. Ele não era mais “acima”.

Era presente. E isso causava uma sensação difícil de nomear.

Não era medo. Não exatamente. Era algo mais próximo de exposição.

Ainda havia quem tentasse. Planos. Soluções.

Cálculos. Reuniões. Como se fosse possível contornar.

Como se fosse temporário. Mas havia um detalhe.

Nenhum plano era terminado. Não por falta de capacidade.

Mas porque, no meio do raciocínio — algo ficava claro demais.

E fazia tudo perder continuidade. Como se o próprio ato de planejar dependesse de um futuro que já não parecia garantido.

E, sem futuro — o plano não se sustentava.

Ele apenas parava. No meio. Como tudo mais.





É isso! Até a próxima!





Autoria: Luciano Otaciano 

Comentários

  1. Luciano, teu instigante conto me fez pensar como a sensação nossa de que tudo está mais próximo de nós, aumenta o "calor" das nossas relações. Estamos no sofá e a guerra no outro lado do mundo vem nos visitar. A criança que morre de fome há milhares de quilômetros é estampada na nossa cara, ali, na sala. Há futuro possível para nós para além da nossa insensibilidade?

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    Respostas
    1. Oi, Eduardo! É bem por aí mesmo amigo Eduardo. A sensação que você descreveu é a mesma que sinto também. Infelizmente os tempos atuais estão estranhos e cada vez mais difícil, ainda mais por aqui nas terras tupiniquins. Muito obrigado por deixar seu comentário por aqui. Um abraço!

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  2. Luciano…
    o texto não descreve um colapso descreve um desnudamento.
    E é curioso como tudo começa pequeno, quase educado. Não é um estrondo, não é um aviso. É um segundo fora do lugar.
    Um detalhe que ninguém consegue provar, mas todo mundo sente.
    Esse atraso que você trouxe… ele é quase mais perturbador do que qualquer catástrofe.
    Porque não dá para lutar contra o que não se mede.
    E, de repente, o tempo que sempre foi nosso chão vira algo levemente inclinado.
    A tua crônica caminha por um lugar muito delicado:
    o instante em que o mundo não quebra por fora,
    mas começa a desorganizar por dentro. E esse calor…
    não vindo do sol, mas das coisas… dos corpos…
    é quase uma metáfora viva de algo que transborda.
    Como se a realidade estivesse febril.
    Como se tudo estivesse consciente demais de si.
    O que mais me transpõe é quando a linguagem falha.
    Não por falta de palavras mas por falta de necessidade.
    Porque a gente fala muito para ajustar o mundo, para tentar mover algo, convencer, explicar, evitar. Mas quando nada mais pode ser alterado… a palavra perde função.
    E aí sobra o quê?
    Presença.
    Crua, inevitável, sem negociação. Esse céu que deixa de ser “acima” e passa a ser “diante”…
    isso não é só imagem, Luciano, isso é quase espiritual. É como se a distância que nos protegia tivesse sido retirada.
    E, sem essa distância, vem o desconforto de estar exposto à própria existência.
    Sem teto simbólico.
    Sem adiamento.
    E os planos interrompidos…
    ah, isso é uma verdade
    Planejar sempre foi um ato de fé disfarçado. Acreditar que haverá depois. Que haverá tempo para concluir, corrigir, continuar. Mas quando o futuro perde consistência,
    o pensamento não termina ele dissolve.
    Teu texto vai chegando perto de algo que não é exatamente o fim…
    é o limite daquilo que sustenta o “continuar”.
    E talvez esse “aproxima” que você deixou suspenso
    seja justamente isso:
    não o mundo se aproximando do fim, mas nós nos aproximando de algo essencial demais para ser evitado. Algo que sempre esteve ali, mas que só pode ser visto quando tudo o resto perde o sentido.
    E no fundo… o que assusta não é o colapso.
    É a lucidez.

    👏🏻👏🏻👏🏻
    Abraço
    Fernanda

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    Respostas
    1. Oi, Fernanda! Muito obrigado pelo seu comentário por aqui. É sempre uma honra ler um comentário tão rico e profundo como este que você escreveu. Sua sensibilidade é algo bastante perceptível e notável quando te lemos. Um fraterno abraço Fernanda!

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  3. Oi!
    Essa premissa do conto me pareceu uma versão distorcida de fábula!

    https://deiumjeito.blogspot.com/

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    Respostas
    1. Oi, Giovana! Interessante seu prisma da fábula. Um fraterno abraço!

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  4. Belas palavras!

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar com muitos posts e novidades! Não deixe de conferir!

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    Até mais, Emerson Garcia

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