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Conto: Amnesia

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: Amnesia No início, nada parecia fora do lugar. As cidades continuavam a respirar em ritmos previsíveis, as pessoas atravessavam os mesmos caminhos, e o tempo — ao menos aparentemente — seguia sua sequência intacta. Ele não saberia dizer quando começou. Não houve evento. Nenhuma ruptura. Nenhum instante que pudesse ser apontado como origem. Apenas uma pequena falha. Quase imperceptível. A primeira vez foi enquanto observava uma xícara sobre a mesa. Nada de incomum — exceto pela sensação de que já havia olhado para ela não uma vez, mas inúmeras vezes naquele mesmo momento. Não como lembrança. Mas como repetição sem intervalo. Ele piscou. A sensação cessou. A xícara permaneceu. Nos dias seguintes, algo semelhante começou a acontecer com mais frequência. Conversas que pareciam já ter ocorrido — não no passado, mas ali mesmo, ainda em andamento. Passos que pareciam se completar ant...

Conto: Amnesia

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: Amnesia



No início, nada parecia fora do lugar.

As cidades continuavam a respirar em ritmos previsíveis, as pessoas atravessavam os mesmos caminhos, e o tempo — ao menos aparentemente — seguia sua sequência intacta.

Ele não saberia dizer quando começou.

Não houve evento. Nenhuma ruptura.

Nenhum instante que pudesse ser apontado como origem.

Apenas uma pequena falha. Quase imperceptível.

A primeira vez foi enquanto observava uma xícara sobre a mesa.

Nada de incomum — exceto pela sensação de que já havia olhado para ela

não uma vez, mas inúmeras vezes naquele mesmo momento.

Não como lembrança. Mas como repetição sem intervalo.

Ele piscou. A sensação cessou. A xícara permaneceu.

Nos dias seguintes, algo semelhante começou a acontecer com mais frequência.

Conversas que pareciam já ter ocorrido — não no passado, mas ali mesmo, ainda em andamento.

Passos que pareciam se completar antes de serem dados.

Pensamentos que surgiam já terminados.

Ele tentou ignorar.

Chamou de cansaço, de distração, de algum tipo de descompasso interno.

Mas havia um detalhe impossível de descartar. 

Nada estava errado o suficiente para ser um erro.

A realidade continuava funcionando.

Mas já não se sustentava com a mesma firmeza.

Certo dia, enquanto caminhava por uma rua comum, algo mudou.

Não externamente. As pessoas ainda passavam.

Os sons ainda preenchiam o espaço. O céu ainda mantinha sua cor. Mas havia uma ausência sutil.

Como se a cena estivesse completa — e, ainda assim, faltasse algo impossível de nomear.

Ele parou. Não por decisão. O movimento simplesmente não continuou.

Foi então que percebeu.  Não conseguia mais localizar com precisão onde estava.

Não geograficamente. Mas no sentido mais básico.

O lugar continuava ali. Mas a sensação de “estar em um lugar” havia enfraquecido.

Como se o próprio conceito estivesse deixando de se sustentar.

Ele olhou ao redor. Tudo respondia.

Nada desaparecia. Nada se distorcia.

E ainda assim — algo fundamental não se encaixava mais.

Tentou pensar sobre isso. Mas o pensamento não avançava. Não por bloqueio.

Mas porque qualquer tentativa já surgia incompleta.

Como se a própria estrutura que permitia entender estivesse se desfazendo silenciosamente.

Não houve medo. Nem clareza. Apenas uma suspensão.

E pela primeira vez, algo se tornou evidente — não como conclusão, mas como impossibilidade de negar. 

Nada ali podia ser separado com precisão.

Nem ele do ambiente, nem o ambiente de si, nem o momento de qualquer outro.

A distinção ainda existia. Mas já não se sustentava completamente.

Ele não tentou resolver. Não havia mais impulso para isso. Permaneceu.

Sem saber o que significava permanecer.

E então — sem transição, sem mudança perceptível, sem qualquer forma de evento — a necessidade de entender deixou de existir.

A rua continuava. As pessoas continuavam.

O mundo não havia parado. Mas algo que antes sustentava tudo aquilo já não estava mais operando da mesma forma.

E isso não podia ser explicado. Nem mesmo para si.

Porque já não havia distância suficiente

para que qualquer explicação fosse formada.




É isso! Até a próxima!



Autoria: Luciano Otaciano

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