Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!
Conto: O Dia em que o Céu Desceu
1
Ninguém percebeu no início.
Não porque não estava acontecendo.
Mas porque parecia impossível.
O céu estava mais claro.
Não azul. Mais claro do que o azul deveria ser.
Alguns disseram que era só o calor.
Outros nem olharam. A vida continuou.
Mensagens. Trânsito. Pequenas preocupações.
Até que alguém percebeu. O sol não estava maior.
Mas estava mais próximo. Não no espaço.
Na sensação. Como se ocupasse mais do que deveria.
E então veio o silêncio. Não externo. Interno.
Como se, por um instante, todas as distrações tivessem perdido força.
E ali — sem explicação — veio o reconhecimento.
Não de morte. Mas de fim.
Um fim que não seria evitado.
E, pela primeira vez, ninguém tentou resolver.
Não havia o que fazer. E isso quebrou algo profundo.
Porque a humanidade sempre viveu com a ideia de tempo.
Planos. Futuro. Continuidade.
Mas agora — isso não existia mais. O sol continuava ali.
Mas não como antes. Não distante. Não neutro.
Mas presente. Impossível de ignorar. Alguns choraram.
Outros riram. Alguns ainda tentaram explicar.
Mas, no fundo, todos sabiam. Não havia erro.
Não havia solução. Não havia amanhã suficiente.
E então algo inesperado aconteceu.
Sem aviso. Sem acordo. As pessoas começaram a parar.
Não morrer. Parar. Como se algo dentro delas tivesse entendido antes da mente.
Conversas cessaram. Preocupações desapareceram.
E, pela primeira vez — não por escolha —
mas por falta de alternativa — a humanidade inteira esteve presente.
Sem passado. Sem futuro. Apenas ali.
O calor aumentava. O céu deixava de ser céu.
E, naquele instante final — não houve desespero coletivo.
Houve algo mais estranho. Uma espécie de clareza.
Como se, no limite absoluto, tudo tivesse finalmente parado de resistir.
E talvez — só talvez — aquele não fosse apenas o fim do mundo.
Mas o fim da distração. E ninguém estava preparado para o que existe quando não há mais nada para evitar.
2
O Primeiro Atraso. No começo, foi quase nada.
Um atraso. Não de horas. De segundos.
Relógios ainda funcionavam. Mas algo não encaixava.
As pessoas chegavam “no horário”. Mas sentiam que já estavam atrasadas.
Sem saber do quê. Conversas começavam com pequenas pausas.
Como se algo tivesse sido perdido antes mesmo de começar.
Ninguém comentou. Porque não havia o que apontar.
E, ainda assim — tudo parecia levemente fora do lugar.
Como se o tempo tivesse deslizado e ninguém tivesse visto.
O calor sem origem. Não era o sol. Pelo menos, não parecia ser.
O calor não vinha de cima. Nem de fora.
Ele vinha de dentro das coisas. Paredes. Asfalto.
Corpos. Como se tudo estivesse aquecendo por conta própria.
As pessoas suavam paradas. Respiravam mais devagar.
Não por cansaço. Mas porque o ar parecia mais denso.
E então alguém disse: “isso não é normal”
Mas a frase não se sustentou. Porque, naquele ponto — nada mais parecia normal o suficiente para comparação.
Os celulares continuavam funcionando.
Sinal cheio. Internet estável. Mas algo estranho começou a acontecer.
As pessoas escreviam e paravam. Não porque não sabiam o que dizer.
Mas porque, de repente, nada parecia importante o suficiente para ser dito.
Mensagens longas foram apagadas. Palavras reduzidas a quase nada.
E, em muitos casos — nem isso. A comunicação não falhou.
Ela perdeu sentido. Como se, pela primeira vez, falar não mudasse absolutamente nada.
E isso foi entendido sem precisar ser explicado.
O céu ainda estava lá. Mas não parecia distante.
Não parecia infinito. Parecia próximo demais.
Como uma superfície. Como se pudesse ser tocado se alguém tentasse.
As pessoas olharam mais. Mas não por curiosidade.
Por necessidade. Algo no céu havia mudado.
Não na forma. Mas na relação. Ele não era mais “acima”.
Era presente. E isso causava uma sensação difícil de nomear.
Não era medo. Não exatamente. Era algo mais próximo de exposição.
Ainda havia quem tentasse. Planos. Soluções.
Cálculos. Reuniões. Como se fosse possível contornar.
Como se fosse temporário. Mas havia um detalhe.
Nenhum plano era terminado. Não por falta de capacidade.
Mas porque, no meio do raciocínio — algo ficava claro demais.
E fazia tudo perder continuidade. Como se o próprio ato de planejar dependesse de um futuro que já não parecia garantido.
E, sem futuro — o plano não se sustentava.
Ele apenas parava. No meio. Como tudo mais.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
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