Pular para o conteúdo principal

Conto: O Corpo que ainda Respira

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: O Corpo que ainda Respira O corpo ainda respira, mas a alma se estira entre mundos. Sinto o frio da noite me envolver, não o frio do ar, mas o frio do espaço que não pertence a nenhum lugar conhecido. O abismo daquela noite voltou a pulsar na minha memória, mas agora, em vez de medo cego, sinto uma reverência tensa. Ele não é apenas horror; é portal. Minha mão toca a mesa. Tato, calor, presença. Cada gesto físico me ancora na carne, mas minha mente flutua, e meus pensamentos ecoam por corredores que nenhum humano jamais percorreu. Ouço o chamado do invisível, como se a própria escuridão sussurrasse segredos que não podem ser ditos, apenas compreendidos. E eu compreendo — mesmo com o corpo, mesmo com a carne, mesmo com a lógica que me acompanha desde sempre, eu compreendo. As sombras surgem, não para me atacar, mas para me testar. Cada forma sem contorno que se aproxima de mim ...

Conto: O Corpo que ainda Respira

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: O Corpo que ainda Respira



O corpo ainda respira, mas a alma se estira entre mundos. Sinto o frio da noite me envolver, não o frio do ar, mas o frio do espaço que não pertence a nenhum lugar conhecido. O abismo daquela noite voltou a pulsar na minha memória, mas agora, em vez de medo cego, sinto uma reverência tensa. Ele não é apenas horror; é portal.

Minha mão toca a mesa. Tato, calor, presença. Cada gesto físico me ancora na carne, mas minha mente flutua, e meus pensamentos ecoam por corredores que nenhum humano jamais percorreu. Ouço o chamado do invisível, como se a própria escuridão sussurrasse segredos que não podem ser ditos, apenas compreendidos. E eu compreendo — mesmo com o corpo, mesmo com a carne, mesmo com a lógica que me acompanha desde sempre, eu compreendo.

As sombras surgem, não para me atacar, mas para me testar. Cada forma sem contorno que se aproxima de mim é um reflexo do que temo em mim mesmo, uma vertigem do que é oculto, do que foi negado, do que o mundo insiste em não ver. Caminho entre elas, respirando, permitindo que minha carne sinta o toque frio da escuridão sem que eu me perca. E é aí que percebo; retornar não foi acaso, foi escolha — escolha do invisível para que eu carregasse algo de volta, algo que transcende dor e medo.

Sento-me no chão, descalço, e fecho os olhos. O espaço entre mundos se curva em espirais que só minha mente, híbrida de carne e espírito, consegue perceber. Há dor, há prazer, há curiosidade e há terror. Cada sensação me ensina que a vida na carne não é oposta ao espírito; ela é a forma que permite sentir o que o abismo revela. Sem o corpo, não haveria intensidade. Sem o espírito, não haveria significado.

Em meio à penumbra, sinto ecos de outras presenças — não humanas, não visíveis, mas tão reais quanto o sangue que corre em minhas veias. Uma delas se aproxima, não com ameaça, mas com algo que posso chamar de conhecimento ancestral, e sussurra a verdade que meu medo sempre negou: “Tu voltaste não para recordar o horror, mas para ensinar a viver o que o humano teme enfrentar.”

E então, como se a própria noite conspirasse a meu favor, sinto um toque que não é físico, mas real. Um calor que atravessa minha medula, me lembrando que o abismo não é inimigo, mas mestre. Ele me obriga a olhar o que muitos tentariam ignorar; a vastidão do eu, a verdade crua da existência, a beleza do horror. Compreendo, finalmente, que voltar não foi uma escolha minha. Foi a ordem silenciosa do universo. Que eu experimentasse o invisível para tornar o mundo mais tangível — não aos olhos, mas ao coração.

O corpo respira. A carne pulsa. A vida insiste em existir, e eu a abraço com cada fibra. Mas sei que o abismo continua, não distante, não alheio, mas em mim, um companheiro silencioso que me guia, que me mostra que a existência verdadeira é a que consegue transitar entre o visível e o invisível, entre medo e êxtase, entre carne e espírito.

Então, ao amanhecer, observo meu reflexo. Não sou inteiro apenas na carne, nem apenas no espírito; sou híbrido. E nesse estado, encontro uma liberdade que nenhum humano conhece. 

A liberdade de saber que posso tocar o abismo, e ainda assim, voltar à luz, trazendo comigo a consciência de mundos que outros jamais perceberão.

No silêncio do quarto, um último eco me atravessa — não mais ameaça, mas convite; viver intensamente cada momento, sentir cada dor, cada prazer, cada vertigem. Pois a vida verdadeira não está apenas em existir, mas em transitar, entre matéria e alma, entre o manifesto e o oculto, até que ambos se tornem um só nessa dança que chamamos de vida.




É isso! Até a próxima!



Autoria: Luciano Otaciano

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog