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O Novo Modos Operandis da Sociedade Contemporânea

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de refletir por aqui. Vem conferir! O Novo Modos Operandis da Sociedade Contemporânea Se você me conhece há mais tempo neste blog, sabe que nunca experimentei a paternidade. Não por falta de desejo ou afeição pelas crianças, mas, sim, por uma condição biológica que me impede de tal vivência, uma esterilidade que carrego desde os primórdios da minha existência. Este fato, aliás, foi o cerne do colapso de meu primeiro casamento. Contudo, isso pertence a um passado que já não me aflige, embora as memórias persistam em nós como ervas daninhas, alimentadas por nossa própria reflexão. Se você é pai ou mãe, é provável que já tenha se deparado com questões inquietantes; quantas horas de tela são apropriadas? Quais aplicativos são dignos de confiança? Em que momento se deve oferecer um dispositivo móvel chamado celular? Seu filho é prisioneiro das telas ou simplesmente um ser humano em meio aos novos tempos? O impacto das te...

Conto: Amnesia

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: Amnesia



No início, nada parecia fora do lugar.

As cidades continuavam a respirar em ritmos previsíveis, as pessoas atravessavam os mesmos caminhos, e o tempo — ao menos aparentemente — seguia sua sequência intacta.

Ele não saberia dizer quando começou.

Não houve evento. Nenhuma ruptura.

Nenhum instante que pudesse ser apontado como origem.

Apenas uma pequena falha. Quase imperceptível.

A primeira vez foi enquanto observava uma xícara sobre a mesa.

Nada de incomum — exceto pela sensação de que já havia olhado para ela

não uma vez, mas inúmeras vezes naquele mesmo momento.

Não como lembrança. Mas como repetição sem intervalo.

Ele piscou. A sensação cessou. A xícara permaneceu.

Nos dias seguintes, algo semelhante começou a acontecer com mais frequência.

Conversas que pareciam já ter ocorrido — não no passado, mas ali mesmo, ainda em andamento.

Passos que pareciam se completar antes de serem dados.

Pensamentos que surgiam já terminados.

Ele tentou ignorar.

Chamou de cansaço, de distração, de algum tipo de descompasso interno.

Mas havia um detalhe impossível de descartar. 

Nada estava errado o suficiente para ser um erro.

A realidade continuava funcionando.

Mas já não se sustentava com a mesma firmeza.

Certo dia, enquanto caminhava por uma rua comum, algo mudou.

Não externamente. As pessoas ainda passavam.

Os sons ainda preenchiam o espaço. O céu ainda mantinha sua cor. Mas havia uma ausência sutil.

Como se a cena estivesse completa — e, ainda assim, faltasse algo impossível de nomear.

Ele parou. Não por decisão. O movimento simplesmente não continuou.

Foi então que percebeu.  Não conseguia mais localizar com precisão onde estava.

Não geograficamente. Mas no sentido mais básico.

O lugar continuava ali. Mas a sensação de “estar em um lugar” havia enfraquecido.

Como se o próprio conceito estivesse deixando de se sustentar.

Ele olhou ao redor. Tudo respondia.

Nada desaparecia. Nada se distorcia.

E ainda assim — algo fundamental não se encaixava mais.

Tentou pensar sobre isso. Mas o pensamento não avançava. Não por bloqueio.

Mas porque qualquer tentativa já surgia incompleta.

Como se a própria estrutura que permitia entender estivesse se desfazendo silenciosamente.

Não houve medo. Nem clareza. Apenas uma suspensão.

E pela primeira vez, algo se tornou evidente — não como conclusão, mas como impossibilidade de negar. 

Nada ali podia ser separado com precisão.

Nem ele do ambiente, nem o ambiente de si, nem o momento de qualquer outro.

A distinção ainda existia. Mas já não se sustentava completamente.

Ele não tentou resolver. Não havia mais impulso para isso. Permaneceu.

Sem saber o que significava permanecer.

E então — sem transição, sem mudança perceptível, sem qualquer forma de evento — a necessidade de entender deixou de existir.

A rua continuava. As pessoas continuavam.

O mundo não havia parado. Mas algo que antes sustentava tudo aquilo já não estava mais operando da mesma forma.

E isso não podia ser explicado. Nem mesmo para si.

Porque já não havia distância suficiente

para que qualquer explicação fosse formada.




É isso! Até a próxima!



Autoria: Luciano Otaciano

Comentários

  1. LIndo modo de falar nesse problema que, infelizmente, vemos acontecer cada vez mais. Gostei de ler e da profundidade dada ao texto! abraços, lindo fds! chica

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    1. Oi, Chica! Muito obrigado! É bem por aí mesmo. Que tenhamos todos um fim de semana abençoado pelo Alto. Um abraço fraterno querida.

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  2. Amnésia é um problema que chega pra todos ao avançar da idade, você trouxe um belo conto, Luciano desejo um ótimo final de semana abraços.

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    1. Oi, Lucimar! Muito obrigado! Que bom que você tenha gostado do conto. Que seu fim de semana seja abençoado. Um fraterno abraço!

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  3. Oi, Luciano. Tudo bem? Desde que escrevi um romance onde a personagem principal tem amnésia (Memórias Anônimas - completa no Wattpad, que deu inpirou o conto A mulher sem memória - publicado no Universo Invisível), esse tema me chama atenção. Toda vez que alguém fala que a única coisa que não pode ser tirada de nós é o conhecimento penso naquelas pessoas que por algum motivo não conseguem mais nem saber quem são. Gostei muito da maneira como você apresentou o tema nesse conto. Se anoto a maior parte do que eu crio hoje é exatamente para nunca perder essa parte tão importante de mim.

    Tenha uma boa semana!
    Até breve;

    Helaina (Escritora || Blogueira)
    https://hipercriativa.blogspot.com (Livros, filmes e séries)
    https://universo-invisivel.blogspot.com (Contos, crônicas e afins)

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    1. Oi, Helaina! Estou bem! É com grande satisfação que percebo seu apreço pelo conto. É uma prática sábia registrar suas criações, pois o que o amanhã reserva é sempre incerto, não é verdade? A precaução, como se sabe, é sempre preferível à necessidade de remediar. Que sua semana seja abençoada. Um fraterno abraço minha amiga.

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  4. Oi Luciano, tudo bem?
    Adorei o conto. Deu pra sentir a confusão do protagonista e, com isso, a angústia da situação também.
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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    1. Oi, Priscila! Estou bem! Que bom que você tenha curtido o conto. Um fraterno abraço querida.

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  5. Oi!
    Acho a amnésia tão triste, belo texto!

    https://deiumjeito.blogspot.com/

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    1. Oi, Giovana! Sim a amnésia é de fato muito triste. Um fraterno abraço querida.

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  6. Olá, amigo Luciano, admirador que sou do gênero conto, li com muita
    satisfação essa sua história curta, escrito de uma forma densa, muito
    apropriada para descrever a personagem, que estava prestes a sofre
    com uma doença neurológica.
    Um conto na linha freudiana, que gostei muito.
    Parabéns!
    Votos de uma boa semana, com muita paz.
    Um abraço, Luciano.

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    1. Oi, Pedro! Que bom que você tenha apreciado o conto. Muito obrigado por sua presença e comentário por aqui. Que sua semana seja abençoada e com alegria no coração. Um abraço meu amigo.

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  7. Belíssimo conto. Parabéns!

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar com muitos posts e novidades! Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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    1. Oi, Emerson! Muito obrigado meu amigo. Boa semana pra ti também. Um abraço!

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  8. Esse conto é quase desesperador. De repente se vê o mundo distorcido, percepções que escapam, coisas que se vão.

    Excelente conto, Luciano, poderíamos comentar muitas coisas sobre o tema.

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    1. Oi, Eduardo! Boa noite! Que bom que você tenha gostado do conto, embora o conto seja desesperador pra quem já teve experiências desse tipo. Um abraço amigo.

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  9. Lu,
    Seu conto deixa explicito o que
    é estar aleheio de si mesmo.
    Tive 2 experiências de perda do sentido
    de não saber onde estava e posso afirmar que
    é uma sensação muito extranha e horrível.
    Foram segundos, mas senti a ruptura e perda
    do/com o real. E a volta a realidade foi assim:
    estranha. Sem motivo aparente, sem alccol
    ou medicação. Só fui... Mas graças a Deus voltei,
    sem danos, ambas no meio da rua e outra
    dentro de um supermercado. Ufa. Vc até
    me dá uma ideia: vou descrever lá numa
    publicação no Espelhando. O que acha?
    Obrigada por essa experiência de ler aqui.
    Ótima nova semana.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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    1. Oi, Catiahô! Boa noite! Que bom que você não teve grandes sequelas e tenha conseguido voltar. Acho ótimo você publicar sobre o assunto em seu blog também. Que sua noite seja de muita paz e descanso. Um fraterno abraço minha amiga.

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  10. Bela viagem, meu amigo, pelos complexos meandros da mente! Parabéns! Meu abraço, boa semana.

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    1. Oi, Árabe! Boa noite! Que bom que gostou meu amigo. Que você possa ter uma boa semana também. Um abraço!

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  11. Olá Bom dia ! Um belo texto , profundo e reflexivo . Saúde mental é muitoimportante e o que pudermos fazer para fugir da vida sedentária , ativvar o cérebro com muitas outras atividades , é ganho de causa .. Abraços
    https://kantinhodafe.blogspot.com
    https://kantinhodasmmennsagens..blogspot.com
    https://kantinhodaedite.blogspot.com

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    1. Oi, Edite! Bom dia! Primeiramente obrigado por deixar seu comentário por aqui. De pleno acordo. Um fraterno abraço.

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