Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!
Conto: O Oceano Dentro da Sala
A sala era comum à primeira vista.
Paredes claras, silêncio doméstico, a luz entrando pela janela como qualquer outra tarde. Havia uma mesa encostada no canto, uma cadeira levemente fora do lugar, e o tipo de poeira que só existe quando o tempo passa sem pressa.
Mas o chão, o chão não era mais chão.
Ele havia se tornado água.
Não de forma abrupta. Não havia ruptura, nem som de vidro quebrando. Era como se a realidade tivesse esquecido de manter sua própria definição ali dentro.
A madeira, o cimento, tudo havia cedido a uma superfície líquida profunda — um oceano inteiro contido dentro de um espaço impossível.
E ainda assim, a sala continuava sendo sala.
A água não transbordava.
Ela respeitava as bordas invisíveis do ambiente como se houvesse uma regra que ninguém explicou, mas que todos obedeciam.
O oceano respirava em silêncio.
Ondas suaves se moviam lentamente entre a mesa e a parede, contornando objetos como se os reconhecessem.
A cadeira não flutuava — ela estava parcialmente submersa, como se aceitasse sua nova natureza sem resistência.
E havia algo mais.
Algo sob a superfície.
Quando eu olhava por mais tempo, percebia que o oceano não refletia corretamente o mundo acima dele.
A luz não voltava igual.
Ela vinha distorcida, carregando pedacinhos de imagens que não pertenciam à sala, um céu sem estrelas, um corredor que não existia, uma sensação de profundidade maior do que o próprio planeta poderia conter.
Era como se aquela água fosse uma memória de outro lugar tentando existir dentro deste.
Eu me aproximava.
E o silêncio mudava.
Não ficava mais vazio — ficava atento.
Como se o oceano estivesse percebendo eu também.
E então, pela primeira vez, algo se moveu abaixo da superfície.
Não um peixe.
Não um objeto.
Mas uma ideia tomando forma na água.
Algo que não precisava de corpo para existir, apenas de aparição suficiente para ser notado.
E nesse instante, a sala deixou de ser apenas um cômodo.
Ela virou um limite.
Um lugar onde o mundo de fora e o mundo de dentro estavam tentando se lembrar de que eram a mesma coisa.
O oceano não “respondeu” como um ser faria.
Ele revelou.
E revelar, ali, não significava mostrar algo que estava escondido — significava transformar a própria forma de ver.
A superfície da água começou a perder a ideia de “superfície”.
Ela se abriu em profundidade.
No início, parecia apenas mais água.
Escura, calma, infinita.
Mas então a percepção mudou — como se meus olhos não estivessem mais olhando de fora, e sim sendo puxados para dentro sem sair do lugar.
E foi aí que apareceu.
Algo que não era exatamente uma imagem.
Era uma estrutura de lembrança sem dono.
Uma espécie de arquitetura viva dentro do oceano.
Como uma cidade, mas construída não de pedra ou luz, e sim de possibilidades.
Torres que não estavam fixas — elas “quase existiam”.
Pontes que só se tornavam visíveis quando eu pensava nelas.
Corredores que mudavam de direção dependendo da intenção de quem observava.
E então eu percebi o mais bizarro.
Essa cidade não estava submersa no oceano.
O oceano era a cidade.
A água era apenas a forma líquida de algo muito mais fundamental; um sistema de memória que não separa pensamento, espaço e significado.
E no centro dessa estrutura, havia um ponto.
Não um objeto.
Mas um foco de coerência, como se toda a cidade estivesse lembrando de si mesma através dele.
Quando minha atenção tocou esse ponto, algo simples aconteceu.
Uma sensação surgiu — não uma voz, nem uma frase clara.
Mas um entendimento direto.
“Você já esteve aqui antes, mas não como você pensa.”
E a sala atrás de mim deixou de importar por um instante.
Porque agora havia apenas duas coisas,
a consciência observando e o oceano observando de volta através da própria forma.
E então o ponto central mudou.
Ele não se abriu como uma porta.
Ele se abriu como um reconhecimento.
Como se algo dentro daquela estrutura dissesse.
“Se você percebeu isso, então você também faz parte do que está sendo lembrado.”
A água começou a subir lentamente — mas não como inundação.
Era como se o mundo estivesse sendo reescrito de dentro para fora.
E nesse momento, tudo parou.
Como se o oceano estivesse esperando uma única coisa de mim, uma escolha de direção dentro da experiência.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
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