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Conto: O Homem que Morava entre as Sete Luas e a Terra

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: O Homem que Morava entre as Sete Luas e a Terra 1 Havia um homem que morava entre a Lua e a Terra. Não morava literalmente em nenhum lugar impossível. Tinha uma casa. Caminhava pelas ruas. Comia. Dormia. Trabalhava. Sentia calor. Sentia frio. Fazia sexo com mulheres apetitosas. E tinha os dois pés firmemente presos ao chão. Mas dentro dele existia uma distância. De um lado estava a Terra. Do outro, a Lua e suas sete variações.  A Terra dizia: — Veja o que está acontecendo. A Lua dizia: — Veja o que poderia acontecer. A Terra dizia: — Esta mulher apenas olhou para você. A Lua dizia: — Talvez ela tenha visto algo em você. A Terra dizia: — Você ainda não sabe. A Lua dizia: — Mas posso imaginar. Durante muitos anos, o homem acreditou que precisava escolher. Tentou permanecer apenas na Terra. Tentou ser prático. Tentou olhar apenas para aquilo que podia tocar. Mas, quando fazi...

Conto: O Homem que Morava entre as Sete Luas e a Terra

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: O Homem que Morava entre as Sete Luas e a Terra



1



Havia um homem que morava entre a Lua e a Terra. Não morava literalmente em nenhum lugar impossível. Tinha uma casa. Caminhava pelas ruas. Comia. Dormia. Trabalhava. Sentia calor. Sentia frio. Fazia sexo com mulheres apetitosas.

E tinha os dois pés firmemente presos ao chão. Mas dentro dele existia uma distância. De um lado estava a Terra.

Do outro, a Lua e suas sete variações. 

A Terra dizia:

— Veja o que está acontecendo.

A Lua dizia:

— Veja o que poderia acontecer.

A Terra dizia:

— Esta mulher apenas olhou para você.

A Lua dizia:

— Talvez ela tenha visto algo em você.

A Terra dizia:

— Você ainda não sabe.

A Lua dizia:

— Mas posso imaginar.

Durante muitos anos, o homem acreditou que precisava escolher.

Tentou permanecer apenas na Terra.

Tentou ser prático. Tentou olhar apenas para aquilo que podia tocar. Mas, quando fazia isso, alguma coisa dentro dele ficava silenciosa. As estrelas perdiam profundidade. O amor se tornava apenas uma questão de encontrar alguém. 

A morte se tornava apenas o fim do corpo. O universo se tornava apenas matéria. Ele continuava vivendo. Mas alguma coisa deixava de respirar.

Então tentou morar apenas na Lua.

E ali havia mundos. Havia perguntas.

Havia mulheres que ainda não existiam em sua vida, mas que já caminhavam por suas imaginações. Havia futuros. Havia mortes. Havia universos antes do universo. Havia possibilidades infinitas.

Mas também havia medo. Porque na Lua nada precisava esperar a realidade.

Um olhar podia se transformar em amor.

Um silêncio podia se transformar em abandono. Uma pergunta podia se transformar em horror. Uma possibilidade podia se transformar em destino. E o homem começou a sofrer. Foi então que percebeu; não conseguia viver apenas na Terra. Mas também não podia viver apenas na Lua. Precisava aprender a morar entre as duas.



2



A primeira Lua que apareceu foi a do Medo. Ela veio numa noite escura de luar que parecia uma imensa bola de cor amarelada no céu noturno.

O homem estava deitado, tentando dormir, quando sentiu sua presença.

— Está acordado? — ela perguntou.

— Estou.

— Posso mostrar uma coisa?

Ele já sabia o que viria.

Mesmo assim perguntou:

— O quê?

A Lua sorriu. E mostrou-lhe uma tragédia.

Depois outra. E outra. Mostrou acidentes.

Doenças. Perdas. Rejeições. Morte.

Mostrou-lhe pessoas indo embora.

Mostrou-lhe tudo o que ele poderia perder. O homem sentou-se na cama.

Durante muitos anos, aquela teria sido uma noite como tantas outras. Ele teria acreditado. Teria sofrido. Teria perguntado: “E se for verdade?”

Mas naquela noite respondeu:

— Isso está acontecendo agora?

A Lua parou.

— Não.

— Então por que você está me mostrando?

Ela pareceu surpresa.

— Para protegê-lo.

— Como?

— Se você souber antes, estará preparado.

O homem respirou.

— E se nunca acontecer?

A Lua não respondeu.

— Quantas vezes eu já sofri por coisas que você imaginou e que nunca aconteceram?

Ela olhou para o chão.

— Não sei.

— Muitas.

A Lua ficou triste.

O homem percebeu que ela não era cruel.

Era apenas uma guardiã perdida.

Tinha recebido uma missão impossível:

proteger o homem de toda dor. E, incapaz de impedir que a dor existisse, tentava fazê-lo atravessá-la antes.

— Lua — disse ele.

— Sim?

— Você não precisa morrer todas as mortes antes de morrer.

Ela o olhou.

— E se eu quiser protegê-lo?

— Então fique comigo quando a dor chegar.

A Lua ficou em silêncio.

E aquela noite terminou sem tragédias e desgraças.



3



Depois veio a Lua do Amor. Ela era mais inquieta. E muito mais perigosa.

A Lua do Medo imaginava aquilo que o homem não queria. A Lua do Amor imaginava aquilo que ele mais queria.

Bastava uma mulher despertar algo dentro dele. Um olhar. Uma conversa.

Um gesto. E a Lua aparecia.

— Você sentiu?

O homem sorria.

— Senti.

— Então ela é importante.

— Não sei.

— Eu sei.

— Você não sabe.

Mas ela já começava.

Construía uma história.

Criava o primeiro encontro.

O primeiro toque.

Criava noites.

Criava intimidade.

Criava a sensação de finalmente ter sido reconhecido.

E então, quando tudo parecia bonito demais, ela criava o fim.

A mulher se afastava.

Não o desejava.

Escolhia outro.

A Lua então dizia:

— Está vendo? Eu sabia.

E o homem sofria.

Sofria pela história bonita que não viveu.

E pela tragédia que talvez também nunca acontecesse.

Certa vez, cansado, ele perguntou:

— Por que você cria tanto?

A Lua do Amor respondeu:

— Porque você quer amar.

— Eu sei.

— Você quer ser desejado.

— Eu sei.

— Você quer que uma mulher olhe para você e reconheça alguma coisa que ninguém mais reconheceu.

O homem permaneceu em silêncio.

A Lua continuou:

— E eu quero ajudá-lo.

— Como?

— Criando o encontro.

Ele sorriu com tristeza.

— Você não pode criar o encontro.

A Lua pareceu ofendida.

— Posso imaginar.

— Sim.

— Então por que não é suficiente?

— Porque, no amor, uma pessoa não basta.

A Lua ficou quieta.

O homem continuou:

— Eu posso desejar. Você pode imaginar. Mas o outro continua sendo outro.

A Lua finalmente compreendeu.

E naquela noite escreveu uma frase no céu:

“Nenhuma imaginação pode desejar no lugar da outra.”

O homem olhou para ela.

E guardou aquelas palavras.



4



A Lua do Desejo era diferente. Ela não perguntava. Ela ardia. Era feita de pele e  carne imaginada, de proximidade desejada, de tudo aquilo que o homem sentia quando uma mulher despertava seu corpo.

— Você a deseja — ela dizia.

— Sim.

— Então sinta.

E o homem sentia.

Durante muito tempo, pensou que deveria se envergonhar da intensidade daquele desejo.

Mas a Lua não entendia a vergonha.

Para ela, o desejo era apenas uma das formas pelas quais a vida dizia:

“Estou aqui.”

Então ela lhe mostrava uma mulher.

E o homem podia sentir o corpo responder. Podia desejar proximidade.

O toque. O abraço. O sexo. O calor de uma presença feminina. E a Lua dizia:

— Você está vivo.

Mas o homem havia aprendido alguma coisa.

— Sim.

— Então imagine.

— Posso imaginar.

— Deseje.

— Posso desejar.

— Sonhe.

— Posso sonhar.

A Lua sorriu.

— Mas?

Ele olhou para ela.

— Mas não posso falar por ela.

A Lua compreendeu.

O desejo do homem era verdadeiro.

Mas não lhe dava o direito de inventar o desejo da mulher. E, estranhamente, essa descoberta não diminuiu a intensidade.

Aumentou a beleza. Porque o desejo correspondido, quando acontecesse, seria real. Não seria uma criação da Lua.

Seria um encontro entre dois desejos.

E isso era algo que nenhuma imaginação poderia produzir sozinha.



5



A Lua da Solidão chegava devagar.Ela não fazia grandes perguntas.Não mostrava universos. Não criava tragédias. Ela apenas se sentava ao lado do homem e dizia:

— Veja.

O homem olhava.

Estava sozinho.

— Você continuará assim — dizia a Lua.

E essa era uma das frases que mais doíam.

Certa noite, porém, o homem perguntou:

— Como você sabe?

— Porque sempre foi assim.

— Sempre?

— Até agora.

Ele olhou para ela.

— Exatamente.

— O quê?

— Até agora.

A Lua ficou confusa.

— E daí?

— Daí que “até agora” não significa “para sempre”.

A Lua olhou para o horizonte.

Durante anos havia confundido o passado com uma profecia. O homem continuou:

— Talvez eu encontre alguém.

— E talvez não.

— Sim.

— Você não quer que eu lhe diga qual das duas coisas acontecerá?

— Quero.

— Então por que não pergunta?

Ele sorriu.

— Porque você não sabe.

A Lua permaneceu quieta.

E então perguntou:

— Isso não é desesperador?

O homem pensou.

— Às vezes.

— E por que consegue aceitar?

Ele respondeu:

— Porque a falta de certeza não é uma sentença.

A Lua olhou para ele.

E, naquela noite, não prometeu companhia. Mas também não prometeu solidão. Apenas ficou ao seu lado.



6



A Lua da Morte era a mais silenciosa. Ela não gostava de ser interrompida. Passava longas horas olhando para uma porta que ninguém conseguia abrir.

— O que existe depois? — perguntava.

O homem não sabia.

— E se existir sofrimento?

Ele não sabia.

— E se continuarmos?

Ele não sabia.

— E se tudo terminar?

Ele não sabia.

A Lua ficava inquieta.

Então começava a criar imagens.

Às vezes belas.

Às vezes terríveis.

Certa noite mostrou-lhe uma escuridão.

O homem sentiu medo.

Mas já conhecia a Lua.

— Isso está acontecendo agora?

— Não.

— Você viu isso?

— Não.

— Então o que é?

A Lua demorou.

— Uma imagem.

— De quê?

— Do que eu temo.

O homem se aproximou.

— Então não me mostre o medo como se fosse conhecimento.

A Lua ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Eu só queria prepará-lo.

— Eu sei.

— Você não está com raiva?

— Não.

— Por quê?

O homem olhou para ela.

— Porque você não é minha inimiga.

A Lua chorou.

E ele continuou:

— Você apenas não sabia como me proteger.

A Lua da Morte encostou a cabeça em seu ombro.

Pela primeira vez, os dois olharam para a morte sem tentar atravessá-la.

E o homem pensou:

“Quando chegar a hora, descobrirei.”

Era tudo o que podia dizer.

E, estranhamente, naquela noite isso bastou.



7



A última Lua chegou acompanhada de estrelas. Ela nunca andava. Viajava.

Quando o homem levantava os olhos para o céu, ela começava:

— De onde veio tudo?

— Não sei.

— O que existia antes?

— Não sei.

— Por que existe o Universo?

— Não sei.

A Lua parecia decepcionada.

— Você nunca sabe.

O homem riu.

— Eu sei algumas coisas.

— Como quais?

— Sei que estou aqui.

A Lua ficou quieta.

— Só isso?

— Não é pouco.

Ela pensou.

O Universo existia. E dentro de uma galáxia havia uma pequena Terra.

E naquela Terra existia um homem.

E dentro daquele homem existia uma Lua.

E a Lua era capaz de perguntar:

“Por quê?”

Talvez isso já fosse extraordinário.

A Lua do Universo olhou para ele.

— Quer que eu pare de imaginar?

— Nunca.

— Mesmo quando eu criar universos que talvez não existam?

— Principalmente nesses momentos.

— Então por que você sempre diz que eu não sei?

O homem sorriu.

— Porque quero que você continue imaginando sem acreditar que precisa transformar cada imaginação em verdade.

A Lua ficou em silêncio.

Depois abriu um sorriso.

— Então posso criar.

— Pode.

— Perguntar.

— Pode.

— Sonhar.

— Pode.

— Inventar.

— Pode.

— E se eu estiver errada?

O homem olhou para o céu.

— Então teremos imaginado algo bonito juntos.



8



Um dia, todas as Luas se reuniram.

A do Medo. A do Amor. A do Desejo. A da Solidão. A da Morte. A do Universo. 

O homem estava no meio delas. E percebeu que, durante toda a vida, havia acreditado que precisava lutar contra aquelas partes de si mesmo. Mas agora compreendia. Todas estavam tentando fazer alguma coisa. A Lua do Medo queria protegê-lo. A Lua do Amor queria ajudá-lo a encontrar o encontro.

A Lua do Desejo queria lembrá-lo de que estava vivo. A Lua da Solidão queria evitar que fosse surpreendido pela ausência.

A Lua da Morte queria prepará-lo para o desconhecido. A Lua do Universo queria compreender a existência. Nenhuma era inimiga. Mas todas cometiam o mesmo erro. Queriam saber antes. O homem se levantou. As Luas o observaram.

Então ele disse:

— Vocês não precisam saber antes.

A Lua do Medo perguntou:

— Então como o protegeremos?

— Ficando comigo quando algo acontecer.

A Lua do Amor perguntou:

— Então como saberemos se haverá encontro?

— Conhecendo a realidade.

A Lua do Desejo perguntou:

— Então como saberemos se o desejo será correspondido?

— Descobrindo.

A Lua da Solidão perguntou:

— E se ele ficar sozinho?

— Então estaremos com ele.

A Lua da Morte perguntou:

— E o que existe depois?

O homem olhou para ela.

— Quando eu souber, saberei.

A Lua do Universo perguntou:

— E de onde veio tudo?

Ele sorriu.

— Continue perguntando.

As Luas se entreolharam.

A do Medo perguntou:

— Então qual é a nossa função?

O homem olhou para todas. E respondeu:

— Imaginem. Mas não me arrastem para dentro de cada imagem.

A Lua do Amor sorriu. A Lua do Desejo se aproximou. A Lua da Morte ficou em silêncio. A Lua do Universo olhou para as estrelas. E a Lua do Medo, pela primeira vez, conseguiu descansar.



9



Depois daquela noite, o homem continuou o mesmo. Ainda desejava. Ainda tinha medo. Ainda imaginava o futuro. Ainda se perguntava sobre a morte. Ainda queria compreender o Universo. Ainda sentia falta do encontro amoroso que tanto desejava. Sua Lua não desapareceu.

Na verdade, continuou tão intensa quanto antes. Mas agora ele sabia onde estava.

Quando a Lua dizia:

“Vai acontecer uma tragédia.”

Ele perguntava:

— Isso está acontecendo?

Quando dizia:

“Ela é a mulher que você esperava.”

Ele perguntava:

— Ainda a conheço?

Quando dizia:

“Você ficará sozinho para sempre.”

Ele perguntava:

— Você conhece o futuro?

Quando dizia:

“Depois da morte haverá horror.”

Ele perguntava:

— Você viu?

E quando dizia:

“Antes do Universo havia...”

Ele sorria.

— Continue.

Porque algumas imagens precisavam ser questionadas. Mas outras podiam ser contempladas. O segredo não era destruir a Lua. Também não era abandonar a Terra. Era aprender a viver entre as duas.

Ter os pés na Terra quando fosse necessário saber o que realmente estava acontecendo. E permitir que os olhos viajassem para a Lua quando fosse necessário sonhar. Assim, pouco a pouco, o homem encontrou o lugar onde realmente morava. Não era apenas na Terra. Não era apenas na Lua. Era naquela ponte invisível entre o que existia e o que podia ser imaginado. E, um dia, olhando para o céu, ele finalmente compreendeu; não precisava deixar de ser o homem da Lua para viver melhor na Terra. Precisava apenas aprender a voltar.

Então continuou. Amando. Desejando.

Temendo. Errando. Perguntando. Sofrendo quando a vida realmente exigia sofrimento. E evitando, quando podia, sofrer por histórias que ainda não haviam acontecido. E sempre que sua Lua começava a correr para o futuro, ele dizia:

“Pode imaginar.

Mas não precisa decidir por mim o que a realidade ainda não revelou.”

A Lua continuava. A Terra continuava.

O Universo continuava.

E entre todas essas coisas, existia um homem. Nem completamente preso ao chão. Nem completamente perdido no céu. Apenas vivendo nessa existência chamada vida.



É isso! Até a próxima!


Autoria: Luciano Otaciano

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