Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!
Conto: O Homem que Tentou Lembrar
Ele sabia que estava esquecendo. Não era um esquecimento comum. Era como se algo estivesse sendo retirado sem deixar marca. Ele pegou o celular. Abriu as fotos. Ali estava ele. Com pessoas.
Sorrindo. Vivendo algo que parecia importante. Mas não sentia nada.
Nem reconhecimento. Nem estranhamento. Só uma distância. Ele tentou forçar. ESSA PESSOA DEVE SER IMPORTANTE PRA MIM. Mas a frase caiu no vazio. Tal qual não tivesse onde se apoiar. E então, pela primeira vez ele não tentou lembrar. E naquele momento algo ficou mais leve. Mas ele não soube dizer o quê. Ao longe dali, uma mulher que sentiu primeiro. Ela percebeu antes dos outros. Não porque era especial. Mas porque não conseguiu ignorar. No meio de uma conversa, algo falhou. As palavras da outra pessoa continuavam. Mas não chegavam nela. Era como assistir sem estar envolvida. E então veio a sensação;
ISSO NÃO É TÃO SÓLIDO QUANTO PARECE.
Ela não disse nada. Tentou voltar. Sorrir. Responder. Mas algo já tinha sido visto. E depois disso não dava mais pra desver. Perto dali. Um homem que resistiu. Ele percebeu as Fendas. E não gostou do que viu. Começou a se agarrar em tudo. Rotina. Horários, certezas, opiniões. Repetia para si mesmo. ISSO É REAL, ISSO SEMPRE FOI ASSIM, NADA ESTÁ MUDANDO. Mas quanto mais afirmava menos aquilo se sustentava. As coisas começaram a escapar.
Não porque estavam indo embora. Mas porque não estavam mais sendo seguradas. E ele apertou mais forte. Até que não havia mais nada nas mãos. Existia também uma criança que não estranhou. Ela não percebeu como os adultos. Não havia comparação. Para ela, o mundo sempre foi assim. Às vezes sólido, às vezes estranho, às vezes sem sentido. Quando as Fendas aumentaram ela apenas observou. Sem tentar corrigir.
Sem tentar entender. E quando algo desaparecia ela não perguntava POR QUÊ. Apenas olhava para o espaço vazio.
Tal qual já conhecesse aquilo. A mesma mulher que sentiu primeiro, dessa vez ela tentou explicar o que não entendia. Ela precisava entender. Começou a estudar.
Ler, pesquisar, criou teorias; colapso da realidade, falha cognitiva coletiva, fenômeno neurológico e o diabo a quatro.
Tudo fazia sentido. Até parar de fazer.
Porque no meio da explicação ela esquecia o que estava explicando. E então escrevia de novo. E esquecia de novo. E de novo. E de novo. E recomeçava. Até que percebeu algo; não era falta de resposta, era falta de algo para ser respondido. E isso não cabia em teoria nenhuma. No lugar mais distante dali. Havia outro homem. O último a ficar. Ele não sabia por que ainda estava ali. Todos tinham cessado.
Não havia silêncio. Não havia som. Não havia nem mesmo ausência. E ainda assim algo permanecia. Não como alguém. Mas como um resquício de percepção. E nesse QUASE EXISTIR surgiu o último pensamento; SOU EU? E então nem isso.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
Fala a verdade, o senhor tá em algum CAPS por aí. (zoeira).
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ExcluirOi, Fabiano! Pior que não estou em nenhum CAPS, quem sabe eu entre em algum, não é mesmo?! Um abraço meu caro.
Gostei da reflexão, essa frase "Isto não é tão sólido quanto parece" tem muito que se diga!
ResponderExcluirBjxxx,
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Oi, Teresa! Pois é querida. Um fraterno abraço!
ExcluirUma delicada tristeza, bonita, sensível. " Não dava mais para desver"...
ResponderExcluirUm conto que também é tão poético!
Abraço
Oi, Ana Paula! Muito obrigado por compartilhar seu comentário por aqui. Um fraterno abraço!
ExcluirLuciano bom dia, esse texto nos fala que a perda da conexão com a própria memória e com as emoções, um conto bastante reflexivo, Luciano feliz quinta-feira abraços.
ResponderExcluirOi, Lucimar! Bom dia! Sim exatamente isso. Feliz quinta-feira pra ti também. Um fraterno abraço!
ExcluirOlá, Luciano, que reflexão, hein?
ResponderExcluirÉ triste, amigo, mas é a realidade do caminho de todos, salve aqueles que partirem antes, não passarão por isso. Por esse desgaste natural para os que vivem bastante.
E pensando...é a vida como de fato é.
Muita realidade aqui, hoje! Quem de nós já não viu coisas assim? Vi, bem de perto. E não esqueço, bem que gostaria.
Daqui, te aplaudindo, querido amigo. Belo conto. Escrito com maestria.
Um fraterno abraço.
Oi, Taís! Muito obrigado pelo comentário tão bonito e pela delicadeza de suas palavras. Elas me alcançam qual brisa etérea, tocando com suavidade a essência calma de minh'alma. Um fraterno abraço querida amiga.
ExcluirE aí, beleza?
ResponderExcluirTeu conto pode ser lido em várias camadas, creio.
A perda da memória é também a perda de sentido.
Oi, Eduardo! Sim é bem por aí mesmo. Um abraço!
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