Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!
Conto: O Homem que Parou de Arquivar o Mundo
Ele percebeu o começo da mudança no momento em que não conseguiu mais lembrar se estava lembrando ou apenas vivendo.
Não foi um evento dramático. Não houve ruptura visível. Apenas uma leve hesitação interna, como se algo que sempre funcionou sozinho tivesse deixado de precisar de esforço para continuar funcionando — e, ao mesmo tempo, tivesse perdido a necessidade de ser percebido como funcionamento.
Ele estava sentado perto da janela.
A luz entrava do mesmo jeito que sempre entrou. Mas havia algo estranho na relação entre a luz e o que ele chamava de “percepção da luz”. Antes, havia dois gestos. Ver e saber que via. Agora parecia haver apenas um único movimento sem borda clara.
Ele tentou nomear isso.
“Concentração”, pensou. Mas a palavra não colou. Não porque estivesse errada — apenas porque chegou tarde demais.
Ele levantou e foi até a mesa onde mantinha pequenos registros de pensamento. Notas soltas. Fragmentos. Tentativas de fixar estados internos que, de outra forma, escorriam. Abriu um caderno.Havia uma frase escrita de dias antes.
“Registrar é impedir que algo desapareça enquanto ainda está acontecendo.”
Ele leu aquilo com atenção.
Mas não sentiu mais a mesma urgência que havia levado aquela frase a existir.
Não porque a ideia estivesse errada.
Mas porque agora o desaparecimento não parecia mais uma ameaça.
Ele tentou escrever algo novo.
Pegou a caneta.
E percebeu algo simples e perturbador:
antes de escrever, já havia algo acontecendo que não precisava ser traduzido para continuar existindo.
Ele escreveu mesmo assim.
“O Mar Interno não é o que eu penso sobre o que sinto.”
Parou. Olhou. E viu que a frase já tinha envelhecido no momento em que apareceu. Não porque fosse falsa.
Mas porque havia algo acontecendo abaixo dela, ou antes dela, ou talvez sem direção nenhuma, que não precisava daquela frase para continuar.
Ele riscou a linha. Mas o risco não apagou nada. Só criou uma segunda camada.
Nos dias seguintes, ele começou a notar uma mudança no próprio impulso de registrar. Antes, qualquer intensidade interna virava imediatamente linguagem — como se a experiência precisasse ser convertida para sobreviver dentro dele.
Agora, não. As experiências continuavam.
Mas não pediam tradução.
Elas simplesmente ocorriam e, de algum modo, não perdiam consistência ao não serem fixadas.
Foi isso que o assustou pela primeira vez.
Não a perda. Mas a permanência sem arquivo. Certa manhã, ele tentou forçar o sistema de volta. Sentou-se e disse para si mesmo: “vou lembrar disso depois”.
E então percebeu o absurdo da frase.
Não havia mais “depois” com a mesma função.
O que ele chamava de “agora” já continha tudo o que antes precisava de continuidade. Não como totalidade.
Mas como aparência que não se desfaz ao não ser sustentada.
Foi nesse período que ele começou a abandonar os cadernos.
Não por decisão. Por desnecessidade progressiva. Os cadernos continuavam lá, intactos, como uma arquitetura antiga de uma função que não havia sido destruída — apenas deixara de ser exigida.
Ele ainda os abria às vezes.
Mas não para recuperar algo.
Apenas para observar a distância entre o que havia sido escrito e o que ainda acontecia nele sem precisar ser escrito.
Um dia, ele teve a sensação de estar à beira de algo que antes chamaria de “entendimento”.
Mas não havia mais objeto para entender.
Não havia mais separação suficiente entre ele e aquilo que acontecia para sustentar a forma de compreensão.
Ele percebeu então que toda a sua vida anterior havia sido organizada em torno de um gesto invisível. Separar experiência e registro para garantir que nada se perdesse. E agora esse gesto estava ausente. Mas nada parecia perdido.
Ele caminhou até a janela novamente.
O mundo continuava lá.
Mas não como “mundo observado”.
Nem como “mundo interno”.
Nem como “mundo externo”.
Essas distinções ainda existiam como possibilidades de linguagem — mas não eram mais necessárias para a continuidade do que ocorria.
E então ele entendeu algo sem transformar isso em pensamento completo. O Mar Interno não era um lugar dentro dele. Nem ele estava dentro de algo. Havia apenas ocorrência sem necessidade de borda. Ele não escreveu mais nada. Não porque havia chegado a uma conclusão. Mas porque a escrita já não era mais o lugar onde algo precisava ser mantido para continuar existindo dentro dele. E, pela primeira vez, isso não pareceu perda. Nem ganho. Nem transcendência. Apenas continuidade sem exigência de forma. E naquele silêncio sem nome, ele percebeu que o verdadeiro fim de todos os arquivos não era o apagamento. Era a descoberta de que nada precisava mais ser salvo para continuar sendo reconhecível enquanto ocorrência. E isso não encerrou nada.
Só retirou a necessidade de encerramento.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
Ei Lu,
ResponderExcluirSaudade daqui.
Mas meu motivo é justificado.
Estava montando o Projeto para trabalho
no RJ, na 5a Feira Literária de Araruama.
Nossa empresa de Produções Artísticas
já ha 4 anos é contratada para show circense.
E aqui estamos em equipe de 6 profissionais.
Trabalharam pela manhã e temos folga
agora tarde e noite, por isso estou aqui
justiicando minha ausência .
Hoje ainda não vou comentar seus
textos, maso trabalho termina na segunda
eira e na na terça já mais livre voltarei aqui.
Bjins de ótimo fim de semana, mesmo
com chuva porque aqui em Araruama chove e
chove hj.
CatiahôAlc.
na semana que vem
Oi, Catiahô! Minha amiga, sua ausência é uma questão que não necessita de justificativas. É a mim que cabe expressar gratidão por todo o carinho que você sempre destila em suas palavras, e por suas considerações que enriquecem este blog. Não sinta a obrigação de ter de comentar; seu apoio já é, por si só, um presente inestimável. Hoje, em minha morada na tranquila cidade do interior do Rio, as nuvens pesadas se acumulam, e a chuva cai em abundância, trazendo consigo uma melodia suave que embala os meus pensamentos. Particularmente adoro chuva. Bom fim de semana querida! Um fraterno abraço!
ExcluirGostei de ler!
ResponderExcluirAproveito para desejar um bom domingo!
Bjxxx,
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Muito obrigado Teresa! Que seu domingo seja abençoado também. Um fraterno abraço querida!
ExcluirBom, eu espero que você siga escrevendo!
ResponderExcluirUm conto que nos leva para aquele lugar de não dualidade, um lugar que não é um lugar, é uma liberdade.
No início da leitura me peguei cheia de amarras condicionadas, já antecipando se esse seria um texto sobre as muitas doenças cognitivas. Voltei para o início e fui deslizando lentamente.
Bom início de semana Luciano!
Oi, Ana Paula! Muito obrigado! Que sua semana seja de realizações e cheia de bênçãos pra ti e sua família. Um fraterno abraço!
ExcluirOlá, Luciano. Mais um maravilhoso texto! abraços!
ResponderExcluirOi, Ana Lucia! Que bom que tenha gostado! Muito obrigado! Um fraterno abraço!
ExcluirUm texto que provoca uma reflexão profunda sobre o silêncio interior e aquilo que existe além do que conseguimos nomear. Luciano boa semana abraços.
ResponderExcluirOi, Lucimar! Muito obrigado por compartilhar seu comentário por aqui. Boa semana pra ti também. Um fraterno abraço querida.
ExcluirVivemos em tempos em que tudo pode ser registrado e guardado, ao passo que podemos perder tudo isso em uma fração de segundos. Falo isso por experiência própria. Adorei o conto.
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está em Hiatus de inverno entre 03 de agosto à 07 de setembro, mas comentaremos nos blogs amigos. Mesmo em Hiatus, o JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Bem observado amigo Emerson. Boa semana pra ti também. Um abraço!
ExcluirMuito bom, Luciano! Veio, inclusive, ao encontro de algo que tenho pensado estes dias: talvez, cada um de nós não perceba senão a sua própria visão do mundo, ou seja: tudo pode ser relativo. Gostei imenso! Meu abraço, amigo; boa semana.
ResponderExcluirMuito obrigado Árabe! É bem por aí mesmo o que também penso. Boa semana pra ti também meu amigo. Um abraço!
ExcluirOlá, amigo Luciano, gostei muito dessa sua narrativa filosófica,
ResponderExcluirnela vemos que o que era necessário ontem, hoje já não o é mais,
o que se queria e desejava fazer, hoje fica no esquecimento, ou na
consciência de que o que se fazia necessário já não se faz mais.
Parabéns!
Uma ótima semana, com muita paz e harmonia.
Grande abraço, amigo.
Oi, Pedro! Muito obrigado! Que sua semana seja abençoada e de paz com alegria no coração. Um abraço meu amigo.
ExcluirOlá, Luciano, que texto lindo e verdadeiro!
ResponderExcluirEu tinha lido e pensei que tivesse deixado meu comentário!
Quando as pessoas vão envelhecendo, vão perdendo algumas coisas,
devagar, e muitas coisas aceitam até bem. Mas com a visão é diferente,
apesar de continuarem vendo, sentindo, a vida em si já não é a mesma.
Acredito que a visão é o maior bem que temos, sem dúvida. Tenho casos na
família dos meus pais, vizinhos, amigos... Muito triste, Luciano.
Quanta sensibilidade há neste seu maravilhoso texto, amigo, aplaudindo daqui!
Uma boa continuação de semana, querido amigo.
Abraços daqui do Sul!
Oi,Taís! Muito obrigado pelo lindo comentário e por sempre acompanhar meu blog. Que a continuidade de sua semana seja de muita paz e alegria no coração. Um fraterno abraço amiga querida.
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