Pular para o conteúdo principal

Poema: Prece da Noite e do Vento

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de poema por aqui. Vem conferir! Poema: Prece da Noite e do Vento Se cai a noite, tudo flui — me leva o vento. Onde ele quiser. Lua, minha guia silente. Me conduz até o sol renascer. Louco, sim, mas não marginal. Faço muito com pouco, sou essencial. Louco, todo mundo tem um pouco. Eu carrego quase cem no meu troco. Sem entorpecer, nasci apressado. Sete meses, um ser acelerado. Mais um comum, mas essa noite é louca. Quero nascer de novo, alma pouca. Do sereno sou, o que a noite traz? Mulheres, histórias, ressacas e paz. Do orvalho sou, o que a noite dá? Perigos, loucuras, vergonhas, sei lá. Se jogar é viver, celebrar, só lazer. Meu caminho a noite sabe guiar. Somos nós outra vez, no ar a voar. Na madrugada, o efeito a pulsar. Se a madrugada obtém o melhor de mim. Estou na fé que me ilumina assim. Tenho o tempo, meu aliado fiel. Saio só quando o sol abrir o céu. Madruga me chama, já sei. Portas se abrem onde eu estive...

Conto: Mar de Louise

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!




Conto: Mar de Louise



I



Ela entrou no apartamento como quem não invade, mas também não pede licença.

Havia nela uma presença calma, quase distraída, como se o espaço já a conhecesse antes de mim.

O vestido claro não chamava atenção — era o movimento que chamava. Um modo de atravessar o ambiente sem se fixar nele. Seus olhos não procuravam nada, e talvez por isso encontrassem tudo.

Cumprimentou-me com um gesto simples. Nada foi dito além do necessário. Ainda assim, algo se deslocou em mim, não como impacto, mas como ajuste. Um objeto antiquado encontrando, enfim, o lugar correto sobre a mesa.

O perfume era leve. Não ficou. Passou.

E foi exatamente isso que permaneceu.

Louise caminhava pelo apartamento observando sem julgar. Tocava os móveis como quem reconhece uma história que não precisa ser contada. Em certos momentos, parecia ouvir algo que eu não ouvia. Em outros, parecia apenas descansar.

Quando sentou-se, o silêncio se acomodou entre nós sem constrangimento. Não havia urgência. Nenhuma promessa implícita. Apenas a sensação de que aquele encontro não precisava ir a lugar algum para ser completo.

Olhei para ela e compreendi, sem clareza excessiva, que algumas presenças não pedem interpretação. Pedem apenas espaço.

E foi isso que fiz.

Afastei dentro de mim o impulso de nomear.

Deixei que ela estivesse.

O mar, pensei, não se explica.

Ele acontece.



II



Na manhã seguinte, o apartamento parecia maior.

Não porque algo tivesse mudado, mas porque algo havia deixado de ocupar espaço dentro de mim.

A luz entrava pelas frestas sem pressa. Observei o pó dançando no ar e tive a impressão de que tudo estava acontecendo no ritmo certo — inclusive eu. Preparei café sem pensar em quem o beberia comigo. Ainda assim, servi duas xícaras.

Louise surgiu no corredor com passos quase inaudíveis. O cabelo preso de qualquer maneira, o rosto ainda atravessado pelo sono. Não disse bom dia. Sorriu. Foi suficiente.

Sentou-se à mesa e segurou a xícara com as duas mãos, como se aquecesse algo além do corpo. Bebeu devagar. Entre um gole e outro, olhava pela janela. Não para fora — para dentro do que a janela permitia.

Houve um momento em que nossos olhares se cruzaram. Não foi encontro, foi reconhecimento breve. Nenhuma expectativa se formou ali. Nenhum pedido. Nenhuma promessa de permanência.

Ela falou algo simples sobre o clima. Respondi com um aceno. As palavras não queriam ocupar o centro daquela manhã, e nós respeitamos isso.

Depois, Louise levantou-se e caminhou até a estante. Passou os dedos pelos livros como quem não escolhe. Parou diante de um título, não o abriu. Apenas sorriu de novo, como se tivesse encontrado algo que não precisava levar.

Quando voltou à mesa, o café já havia esfriado. Nenhum de nós comentou. Algumas coisas cumprem sua função mesmo quando não são consumidas.

Naquele instante compreendi:

havia encontros que não vinham para ficar, mas para reorganizar o que estava desorganizado.

E isso, percebi, também era uma forma de amor — sem nome, sem promessa, sem peso.



III



O dia avançou sem que percebêssemos.

Não houve planos, apenas a sucessão natural das horas.

Louise saiu antes do meio-dia. Não disse para onde ia. Pegou a bolsa, olhou em volta como quem se despede de um lugar que não pede despedida, e fechou a porta com cuidado. 

O silêncio que ficou não era ausência — era ajuste.

Caminhei até a janela. A rua seguia igual a tantas outras, mas algo em mim havia mudado de posição. Não era alegria nem tristeza. Era uma espécie de repouso recém-descoberto, ainda estranho ao corpo.

Lembrei-me de como, antes, eu precisava nomear tudo. Definir o que sentia, prever o que viria, sustentar o que mal existia. Agora não. Agora bastava estar.

À tarde, tentei escrever. As palavras vieram poucas. Escrevi menos do que apaguei. Quando parei, não senti fracasso. Senti precisão.

Preparei outra xícara de café. Desta vez, apenas uma. Sentei-me à mesa e bebi sem pressa, olhando o mesmo ponto da parede onde a luz insistia em repousar. Não pensei em Louise. E isso não foi esquecimento — foi respeito.

Ao anoitecer, a casa voltou a se fechar sobre si mesma. Acendi uma lâmpada baixa, dessas que não iluminam tudo. Algumas sombras precisam permanecer onde estão para que o espaço continue habitável.

Antes de dormir, percebi algo simples e definitivo. Eu não precisava mais ser visto para existir.

Nem amado para permanecer inteiro.

Apaguei a luz com essa constatação leve, quase imperceptível.

O mar continuava ali.

Não chamava.

Não recuava.

Apenas estava.



IV



Acordei antes do sol.

O corpo despertou primeiro que qualquer ideia.

Fiquei alguns minutos deitado, ouvindo o ruído distante da cidade. Não havia urgência. Nem expectativa. Apenas o reconhecimento de estar ali, inteiro, sem precisar provar nada a ninguém.

Levantei. Abri a janela só o suficiente para o ar entrar. O frio leve tocou o rosto e bastou. Não era um dia especial. E isso era um alívio.

Lavei o rosto. Olhei meu reflexo sem buscar sinais. Não procurei respostas. O espelho devolveu apenas o necessário.

Louise não voltou naquela manhã.

E isso não criou falta.

Arrumei a casa devagar. Não por ordem, mas por cuidado. Cada objeto no lugar parecia menos uma organização externa e mais um acordo silencioso comigo mesmo.

Sentei-me no chão por alguns instantes. As costas apoiadas na parede. Respirei fundo uma única vez. Não repeti. Não transformei em ritual.

Quando o relógio marcou nove horas, percebi que o dia já tinha começado havia muito tempo. E eu estava dentro dele, sem atraso.

Não pensei no futuro.

Não revisei o passado.

Apenas segui.




FINAL



Nada aconteceu.

E, ainda assim, o dia se cumpriu.

O sol atravessou a janela por algumas horas. Depois se afastou. As sombras mudaram de lugar sem pedir atenção.

Caminhei até a cozinha. Bebi água. Senti o peso do corpo nos pés. O mundo permaneceu estável.

Não pensei em Louise.

E, quando pensei, não houve dor.

Havia um espaço tranquilo onde antes existia pergunta.

À tarde, sentei perto da porta aberta. O vento entrou e saiu. Não deixou recados. Não levou nada embora.

Quando a noite chegou, acendi uma luz fraca. 

O suficiente para não tropeçar. O suficiente para não iluminar demais.

Deitei cedo.

Antes de dormir, compreendi algo sem formular em palavras. Algumas histórias terminam não porque acabam, mas porque já não precisam continuar.




É isso! Até a próxima!




Autoria: Luciano Otaciano 

Comentários

  1. Inspiração poética notável. Gostei muito. Deixo o meu elogio e aplauso
    Saudações cordiais e poéticas

    ResponderExcluir
  2. Olá, Luciano, tudo bem?
    Magnífico, um conto com tiradas poéticas, com ótimas reflexões
    que nos leva a fazer em vários momentos de seu texto.
    Um conto muito delicado, repleto de sentimentos, de reflexões e
    muitas verdades.
    E depois de lido, ainda continuei a pensar !
    Deixo meus aplausos daqui de longe!
    Um feliz fim de semana e fraterno abraço Luciano!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Taís! Estou bem! Que bom que você tenha gostado do conto. Muito obrigado por deixar seu comentário por aqui. Um fraterno abraço Taís.

      Excluir
  3. Ei Lu!
    Li seu delicado conto
    com uma sensação de Leveza e um sopro de
    Esperança.
    Gosto dessa ES rota que leva
    o leitor como eu por exemplo
    a parar e imaginar
    cena a cena.
    Obrigado por compartilhar.
    Ahh, estou lendo o livro
    que me recomendou pra Taís .Bjins de ótimo domingo.
    CatiahôAlc.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Catiahô! Você é uma querida mesmo. Obrigado por ler meu livro REFLEXÕES DE VIDA. Espero que você goste da experiência de leitura. Tenha uma semana abençoada querida. Um fraterno abraço amiga Catiahô.

      Excluir
  4. Um dos melhores contos que já li, amigo! Mais é dito nas entrelinhas, do que nas palavras; você explica tudo, sem nada precisar explicar. Meu abraço e meu respeito; boa semana!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Árabe! Muito obrigado amigo. Que bom que o conto tenha lhe agradado. Boa semana pra ti também. Abraço!

      Excluir
  5. Oi, Luciano. Tudo bem? Que delícia ler seu conto e que saudade de escrever um. Infelizmente perco muito tempo pensando se vale a pena colocar em palavras o que penso e pouco tempo escrevendo. Foi interessante como a imagem do apartamento não descrito simplesmente apareceu na minha mente. Desde o chão de tacos de madeira, algumas plantas nas estantes da sala e um tom amarelo claro (não me pergunte o motivo.. haha..). Histórias que nos transportam são as melhores. E você fez isso muito bem com esse conto. Parabéns!

    Tenha uma boa semana!
    Até breve;

    Helaina (Escritora||Blogueira)
    https://hipercriativa.blogspot.com (Livros, filmes e séries)
    https://universo-invisivel.blogspot.com (Contos, crônicas e afins)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Helaina! Estou bem! Fico feliz que você tenha curtido o conto. Escreva sim, amiga, estou com saudades das suas histórias. Você também é uma escritora incrível! Obrigado pelo seu comentário. Espero que você tenha uma ótima semana! Um fraterno abraço!

      Excluir
  6. Luciano boa noite, um conto inspirador, leve, no qual só você pode fazer, desejo uma feliz terça-feira bjs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Lucimar! Obrigado. Que bom que você tenha se agradado do poema. Tenha uma quarta-feira feira feliz também. Um fraterno abraço!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog