Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!
Conto: Mar de Louise
I
Ela entrou no apartamento como quem não invade, mas também não pede licença.
Havia nela uma presença calma, quase distraída, como se o espaço já a conhecesse antes de mim.
O vestido claro não chamava atenção — era o movimento que chamava. Um modo de atravessar o ambiente sem se fixar nele. Seus olhos não procuravam nada, e talvez por isso encontrassem tudo.
Cumprimentou-me com um gesto simples. Nada foi dito além do necessário. Ainda assim, algo se deslocou em mim, não como impacto, mas como ajuste. Um objeto antiquado encontrando, enfim, o lugar correto sobre a mesa.
O perfume era leve. Não ficou. Passou.
E foi exatamente isso que permaneceu.
Louise caminhava pelo apartamento observando sem julgar. Tocava os móveis como quem reconhece uma história que não precisa ser contada. Em certos momentos, parecia ouvir algo que eu não ouvia. Em outros, parecia apenas descansar.
Quando sentou-se, o silêncio se acomodou entre nós sem constrangimento. Não havia urgência. Nenhuma promessa implícita. Apenas a sensação de que aquele encontro não precisava ir a lugar algum para ser completo.
Olhei para ela e compreendi, sem clareza excessiva, que algumas presenças não pedem interpretação. Pedem apenas espaço.
E foi isso que fiz.
Afastei dentro de mim o impulso de nomear.
Deixei que ela estivesse.
O mar, pensei, não se explica.
Ele acontece.
II
Na manhã seguinte, o apartamento parecia maior.
Não porque algo tivesse mudado, mas porque algo havia deixado de ocupar espaço dentro de mim.
A luz entrava pelas frestas sem pressa. Observei o pó dançando no ar e tive a impressão de que tudo estava acontecendo no ritmo certo — inclusive eu. Preparei café sem pensar em quem o beberia comigo. Ainda assim, servi duas xícaras.
Louise surgiu no corredor com passos quase inaudíveis. O cabelo preso de qualquer maneira, o rosto ainda atravessado pelo sono. Não disse bom dia. Sorriu. Foi suficiente.
Sentou-se à mesa e segurou a xícara com as duas mãos, como se aquecesse algo além do corpo. Bebeu devagar. Entre um gole e outro, olhava pela janela. Não para fora — para dentro do que a janela permitia.
Houve um momento em que nossos olhares se cruzaram. Não foi encontro, foi reconhecimento breve. Nenhuma expectativa se formou ali. Nenhum pedido. Nenhuma promessa de permanência.
Ela falou algo simples sobre o clima. Respondi com um aceno. As palavras não queriam ocupar o centro daquela manhã, e nós respeitamos isso.
Depois, Louise levantou-se e caminhou até a estante. Passou os dedos pelos livros como quem não escolhe. Parou diante de um título, não o abriu. Apenas sorriu de novo, como se tivesse encontrado algo que não precisava levar.
Quando voltou à mesa, o café já havia esfriado. Nenhum de nós comentou. Algumas coisas cumprem sua função mesmo quando não são consumidas.
Naquele instante compreendi:
havia encontros que não vinham para ficar, mas para reorganizar o que estava desorganizado.
E isso, percebi, também era uma forma de amor — sem nome, sem promessa, sem peso.
III
O dia avançou sem que percebêssemos.
Não houve planos, apenas a sucessão natural das horas.
Louise saiu antes do meio-dia. Não disse para onde ia. Pegou a bolsa, olhou em volta como quem se despede de um lugar que não pede despedida, e fechou a porta com cuidado. O silêncio que ficou não era ausência — era ajuste.
Caminhei até a janela. A rua seguia igual a tantas outras, mas algo em mim havia mudado de posição. Não era alegria nem tristeza. Era uma espécie de repouso recém-descoberto, ainda estranho ao corpo.
Lembrei-me de como, antes, eu precisava nomear tudo. Definir o que sentia, prever o que viria, sustentar o que mal existia. Agora não. Agora bastava estar.
À tarde, tentei escrever. As palavras vieram poucas. Escrevi menos do que apaguei. Quando parei, não senti fracasso. Senti precisão.
Preparei outra xícara de café. Desta vez, apenas uma. Sentei-me à mesa e bebi sem pressa, olhando o mesmo ponto da parede onde a luz insistia em repousar. Não pensei em Louise. E isso não foi esquecimento — foi respeito.
Ao anoitecer, a casa voltou a se fechar sobre si mesma. Acendi uma lâmpada baixa, dessas que não iluminam tudo. Algumas sombras precisam permanecer onde estão para que o espaço continue habitável.
Antes de dormir, percebi algo simples e definitivo. Eu não precisava mais ser visto para existir.
Nem amado para permanecer inteiro.
Apaguei a luz com essa constatação leve, quase imperceptível.
O mar continuava ali.
Não chamava.
Não recuava.
Apenas estava.
IV
Acordei antes do sol.
O corpo despertou primeiro que qualquer ideia.
Fiquei alguns minutos deitado, ouvindo o ruído distante da cidade. Não havia urgência. Nem expectativa. Apenas o reconhecimento de estar ali, inteiro, sem precisar provar nada a ninguém.
Levantei. Abri a janela só o suficiente para o ar entrar. O frio leve tocou o rosto e bastou. Não era um dia especial. E isso era um alívio.
Lavei o rosto. Olhei meu reflexo sem buscar sinais. Não procurei respostas. O espelho devolveu apenas o necessário.
Louise não voltou naquela manhã.
E isso não criou falta.
Arrumei a casa devagar. Não por ordem, mas por cuidado. Cada objeto no lugar parecia menos uma organização externa e mais um acordo silencioso comigo mesmo.
Sentei-me no chão por alguns instantes. As costas apoiadas na parede. Respirei fundo uma única vez. Não repeti. Não transformei em ritual.
Quando o relógio marcou nove horas, percebi que o dia já tinha começado havia muito tempo. E eu estava dentro dele, sem atraso.
Não pensei no futuro.
Não revisei o passado.
Apenas segui.
FINAL
Nada aconteceu.
E, ainda assim, o dia se cumpriu.
O sol atravessou a janela por algumas horas. Depois se afastou. As sombras mudaram de lugar sem pedir atenção.
Caminhei até a cozinha. Bebi água. Senti o peso do corpo nos pés. O mundo permaneceu estável.
Não pensei em Louise.
E, quando pensei, não houve dor.
Havia um espaço tranquilo onde antes existia pergunta.
À tarde, sentei perto da porta aberta. O vento entrou e saiu. Não deixou recados. Não levou nada embora.
Quando a noite chegou, acendi uma luz fraca. O suficiente para não tropeçar. O suficiente para não iluminar demais.
Deitei cedo.
Antes de dormir, compreendi algo sem formular em palavras. Algumas histórias terminam não porque acabam, mas porque já não precisam continuar.
É isso! Até a próxima!
Autoria: Luciano Otaciano
Inspiração poética notável. Gostei muito. Deixo o meu elogio e aplauso
ResponderExcluirSaudações cordiais e poéticas