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Conto: Mar de Louise

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: Mar de Louise I Ela entrou no apartamento como quem não invade, mas também não pede licença. Havia nela uma presença calma, quase distraída, como se o espaço já a conhecesse antes de mim. O vestido claro não chamava atenção — era o movimento que chamava. Um modo de atravessar o ambiente sem se fixar nele. Seus olhos não procuravam nada, e talvez por isso encontrassem tudo. Cumprimentou-me com um gesto simples. Nada foi dito além do necessário. Ainda assim, algo se deslocou em mim, não como impacto, mas como ajuste. Um objeto antiquado encontrando, enfim, o lugar correto sobre a mesa. O perfume era leve. Não ficou. Passou. E foi exatamente isso que permaneceu. Louise caminhava pelo apartamento observando sem julgar. Tocava os móveis como quem reconhece uma história que não precisa ser contada. Em certos momentos, parecia ouvir algo que eu não ouvia. Em outros, parecia apenas de...

Poema: Enquanto a Alma Me Escapava Pelos Meus Olhos

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de poema por aqui. Vem conferir!



Poema: Enquanto a Alma Me Escapava Pelos Meus Olhos



Foi durante a noite.

Ou melhor foi durante a ausência de mim.

Quando o sono não me carregava, mas sim me cuspia para fora do corpo, feito alguém que nunca pertenceu à própria carne.

Eu me vi.

Sim — me vi deitado.

Pálido.

Imóvel.

Vazio.

Como se a morte ensaiasse o meu corpo em silêncio.

Meu espírito, ou sei lá o quê, flutuava por cima de mim como uma dor que não cabe.

E eu sentia o peso do invisível me atravessando, como uma presença que não tinha nome mas me conhecia melhor que qualquer humano.

Eu quis voltar.

Mas não sabia como.

Havia um medo absurdo de nunca mais habitar o corpo.

Um medo que grita sem boca, que implora sem voz.

E não havia ninguém para me chamar de volta.

Só o escuro.

Só o frio.

Só a verdade nua de que há dimensões que não respeitam relógios, leis, religiões ou lógicas.

Eu voltei.

Aos trancos e barrancos.

Com a alma ferida.

Como quem volta de um lugar onde não devia ter ido — mas foi, porque carrega dentro de si uma antena partida, um dom maldito, uma sensibilidade que sangra.

Sou médium, dizem. 

Sou ponte, dizem também. 

O mundo já tem os rótulos pra mim, à espera que eu o agarre.

Sou espaço por onde o invisível caminha.

Mas isso me atormenta.

Isso me desloca.

Isso me condena aos olhos cegos de um mundo que teme tudo o que não consegue dominar.

Um mundo doente e ignorante que me julga sem conhecer minha história. 

Eu não escolhi isso.

Mas isso me escolheu.

E agora, cada vez que fecho os olhos para dormir, me pergunto se minha alma voltará inteira, ou se um pedaço dela ficará preso na escuridão que também me ama.

E assim sigo na existência terrena que é  viver. 





É isso! Até a próxima!




Autoria: Luciano Otaciano 

Comentários

  1. Luciano,

    teu texto é um mergulho corajoso numa experiência limite, daquelas que desorganizam a linguagem e obrigam a escrita a tatear o indizível. Há nele uma lucidez dolorosa, um corpo observado de fora, uma alma que volta ferida, mas consciente demais. Tocou-me especialmente essa ideia de ser ligação sem ter escolhido sê-lo o peso de sentir além, num mundo que prefere rótulos ao mistério. Teu relato não pede explicações; ele pede escuta. E fica, inquietante e verdadeiro, como ficam as experiências que nos atravessam para sempre.

    Abraço
    Fernanda

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    1. Oi, Fernanda! Experiências assim marcam pra sempre, especialmente quando não há preparo adequado pra isso, não? Abraço!

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    2. Sim!
      Você tem toda razão. Experiências assim realmente marcam profundamente, sobretudo quando acontecem sem preparo, sem orientação e sem acolhimento. O impacto fica, mas com o tempo, estudo e cuidado, elas podem se transformar em aprendizado e equilíbrio. Obrigada pelo olhar atento e pela partilha.

      Um abraço!

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    3. Obrigado Fernanda por deixar seu comentário. Abraço!

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  2. Olá Luciano, adorei o poema!!! abraços e feliz 2026!

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    1. Oi, Ana Lúcia! Que bom que o poema tenha sido de seu agrado. Obrigado por deixar seu comentário por aqui. Abraço e Feliz 2026 pra você e sua família também.

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  3. Bravíssimo Lu!
    Lindos e inspiradores versos.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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  4. Quando dormimos o consciente não manda.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  5. É, meu caro. Ser médium é um dom, mas não significa que é bom, que é vantajoso, como alguns pensam. A mediunidade é apenas o que é.
    Sobre o mundo doente, eu acho que nós todos estamos de certa forma adoecidos em algumas coisas. Este não é um lugar bom. Ok que muita gente tem suas realizações, só que muitos também têm as frustrações. E tanto os que possuem suas realizações, quanto os que carregam as frustrações, todo mundo carrega um histório de problemas, se não é a própria existência, é tendo que aguentar a problemática existência de uma outra pessoa. Um mundo bom de verdade não seria assim. Mas é o mundo que temos e só nos resta viver.

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    1. Oi, Fabiano! Exato de pleno acordo. O jeito é ir vivendo da maneira que dá. Obrigado por comentar. Abraço!

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