Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão? Hoje é dia de reflexão por aqui. Vem conferir!
Entre a Vontade e o Desejo
No vasto teatro da psique humana, onde as correntes eternas da consciência tecem padrões além da compreensão comum, o desejo não irrompe do vazio primordial como um capricho isolado. Ele surge, qual visão hipnótica de dimensões ocultas, como um impulso de magnitude quase cósmica, carregado de uma tensão primordial, sempre que as inquietações internas — reflexos de arcaicas harmonias interrompidas — tocam os recessos da mente. É como se o intelecto, incapaz de abarcar plenamente certo desconforto transitório, invocasse, por mecanismos arcanos e automáticos, um portal de evasão. Assim, o desejo não se ergue como a causa primordial de nossa inquietude; ele é, antes, sua consequência ressonante, o ápice final de um circuito emocional que se desenrola em camadas profundas e intrincadas. Toda manifestação de desejo porta em si o combustível de eras pretéritas: memórias não assimiladas, temores ancestrais, carências vastas como oceanos estelares, rejeições ecoantes e experiências abruptamente truncadas. Esse repositório forma o "software" psicológico, um sistema intricado moldado pelas vicissitudes da dor, tal como os grimórios do universo registram as leis imutáveis do cosmos. A mente, nessa configuração, aprende a navegar pelos éteres internos, afastando-se de tensões latentes, e assim a maioria dos desejos pessoais assume caráter compensatório, não apontando para a essência verdadeira do ser, mas para os abismos dos quais fugimos em nossa caminhada eterna. Contudo, essa não é a totalidade do grande mistério. Há uma distinção profunda, quase transcendental, entre desejo e vontade. O desejo é pessoal, condicionado pelos véus da reatividade, nascendo da psique em sua tentativa de suavizar o que ainda não compreende em plenitude. Já a vontade é o movimento primordial da vida, o fluxo espontâneo da existência cósmica — aquilo que o Mestre Jesus designou como "a vontade do Pai", e que o Taoísmo contempla no curso silencioso e inexorável do Tao. Essa vontade não brota de dor ou carência, nem de fuga; ela é expressão pura, como o rio que serpenteia pelos vales eternos porque tal é sua natureza inefável. Ramana Maharshi, em sua sabedoria que transcende os confins do ego, apontava para essa verdade milenar: "A ideia de que somos agentes é mera ilusão; tudo é conduzido por uma força maior, vasta e impessoal." Quando cremos seguir nossa própria vontade, na verdade obedecemos a impulsos condicionados pelos véus da ilusão; mas, ao dissolver-se tal engano, o agir flui sem conflito, emergindo dos éteres da defesa psicológica dissolvida. Krishnamurti, com perspicácia profética, delineava esses dois movimentos: o desejo nasce do atrito entre o que é e o que o centro psicológico anseia que seja, enquanto a verdadeira ação irrompe onde não há tal centro em fuga de si mesmo. Onde persiste a evasão, ergue-se o desejo; onde reina a presença total, desdobra-se apenas a ação pura. Mestre Eckhart, em linguagem cristã de profundidade abissal, proclamava: "A liberdade perfeita é não ter vontade própria." Tal declaração revela-se luminosa quando percebemos que não se trata de submissão servil, mas da dissolução do desejo condicionado, permitindo que a vontade maior — a vida em seu movimento espontâneo e grandioso — se manifeste em esplendor. O equívoco comum reside em confundir o desejo psicológico, nascido da dor como um vórtice de vazio, com essa vontade profunda, plena em si mesma. O desejo é inquietação turbulenta; a vontade, movimento sem esforço, qual as estrelas em sua dança eterna. Ao vislumbrar tal distinção, compreendemos que grande parte do sofrimento humano decorre da confusão entre essas forças colossais: cremos ser autênticos ao seguir impulsos que são meras evasões de dores ancestrais, perpetuando ciclos automáticos que ecoam pelos salões da mente. Entretanto, quando cessamos a fuga e volvemos o olhar diretamente para o que perturba — reconhecendo-o como parte integrante do grande todo —, uma transformação se opera, vasta e luminosa. A energia outrora represada inicia sua circulação, como águas primordiais que encontram passagem pelos canais cósmicos. A vida retoma seu fluxo inexaurível, revelando a vontade natural em toda sua glória. Ela não demanda esforço descomunal, não gera compulsão, nem tensiona os éteres internos; simplesmente se manifesta, como o Tao que age sem agir, em harmonia perfeita. O caminho não reside em negar ou reprimir o desejo, mas em sondar suas origens arcanas. Aquilo que a mente evita é pedaço essencial de nós, aguardando apenas o reconhecimento. No instante em que paramos de lutar contra o que sentimos, a dor deixa de reger a dinâmica interna — e o desejo perde sua força compulsiva. Assim, distinguimos com clareza cristalina aquilo que brota da fuga e aquilo que emana da vida em sua totalidade resplandecente. Gente quando fazemos isso é libertador. É isso! Até a próxima!
Querido amigo Luciano,
ResponderExcluirAh, eu concordo muito com o que você escreveu no texto. Infelizmente não sou expert nesse assunto - até gostaria de ser, pois assim comentaria com propriedade sobre esse tema que considero interessantíssimo - mas enfim, o que tenho é apenas minha opinião pessoal, perfeitamente passível de ser contraditada. Não acho que o desejo seja uma escolha individual e descontextualizada. Acho que o desejo está enraizado em estruturas mais profundas da existência humana e da cultura. Ou seja, não é um impulso aleatório ou um mero capricho que surge do nada. É antes, um resultado. Um resultado de interações complexas com o mundo, com o outro e com o próprio inconsciente. É um motor constante, que nunca está satisfeito, uma vez que sua existência está imbricada na estrutura psíquica do sujeito e moldada também por normas sociais, valores culturais, pela linguagem e interações interpessoais, inclusive o relacionamento com os pais. Assim sendo, você tem total razão quando escreve que de nada adianta fugir nem lutar contra o que sentimos. Pura verdade. Talvez procurar em nós as razões dos desejos que sentimos, seja um caminho melhor para nosso bom viver. Não sei, Luciano, mas como vês, concordo com as ideias postas no texto. Grata pela possibilidade de reflexão que você trouxe à tona.
Bjss, marli
Oi, Marli. Que observação de sabedoria profunda, querida amiga companheira de reflexões. Todos podem e devem opinar e comentar se assim quiserem, não é verdade? A sua linha de raciocínio é a mesma da minha. O desejo, embora fincado em camadas profundas e ancestrais de nossa natureza interior, carrega consigo uma vibração sutil de agitação, um reflexo distante de forças primordiais em conflito. Já a vontade, essa emanação pura e sem precedentes, não suscita tal perturbação; ela desdobra-se em naturalidade espontânea, desprovida de causa ou origem discernível, revelando-se assim como algo intrinsecamente genuíno e primordial, um pedaço do cosmos interior em perfeita harmonia. Quando se aprende a utilizar e saber diferenciar um do outro é libertador. Muito obrigado por deixar seu comentário tão enriquecedor querida. Um abraço!
ExcluirLuciano, me empolguei e acabei não falando sobre a vontade. Vou agora debruçar-me um pouquinho nesta janela, desde já anunciando que concordo com você. Como falei no comentário anterior, penso que o desejo é RESULTADO de nossas interações com o mundo. Transpondo agora para outra reflexão, penso que o desejo além de ser um resultado, é também uma REAÇÃO (imediata e inconsciente ou até subconsciente), enquanto que a vontade é uma AÇÃO deliberada. O que temos aqui? AÇÃO E REAÇÃO, e isto me leva a crer que a principal diferença entre desejo e vontade reside na sua origem e no seu propósito: o desejo é REATIVO e impulsivo, enquanto a vontade é AÇÃO consciente, superior, deliberada e orientada para objetivos. Explico: diante do melhor sorvete do mundo (hum...rs), eu posso, pela minha vontade, decidir conscientemente recusar o sorvete, porque essa recusa está alinhada com a minha vontade, cujo maior objetivo é perder peso, a médio ou longo prazo. Em suma: vontade é a força (força de vontade, lembra?) que sustenta o esforço, a disciplina e a consistência necessárias para alcançar nossos objetivos. Muitas vezes nossa motivação inicial nos põe para baixo, aí vem a força de vontade e nos levanta. Já, o desejo nos move por satisfações momentâneas. Bom seria se a gente conseguísse passar nossos desejos pelo filtro da razão e alinhá-los com as nossas vontades. Já imaginou, Desejo e Vontade de mãos dadas caminhando suavemente pela vida e cumprindo os objetivos propostos? É a glória, rs!
Excluirbjs, marli
Marli amiga seu comentário foi preciso como o traçado de um antiquado instrumento de medição, forjado nas oficinas dos artesãos primordiais. Parabéns por essa lucidez clara e inteligência afiada, que ilumina os caminhos do diálogo. Eu aprecio bastante seus comentários por aqui, pois eles sempre revelam inteligência, coerência e verdades essenciais, como páginas de um grimório bem guardado. Obrigado, amiga querida. Um forte abraço!
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