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Conto: Anastácio

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir! Conto: Anastácio  I Esqueceste, não foi? Esqueceste que sou tua mulher. Pois então, assenta esse corpo fatigado e encara, com os olhos bem abertos, a sentença que te cabe. Sou aquela com quem tu selaste pacto diante do altar de uma igrejinha simplória— onde o amor, idiota e esperançoso, ainda ousava se vestir de domingo. Eu, a que suportou tua ausência mesmo quando estavas presente; teus silêncios que transbordavam desculpas mal paridas; tua falta de norte disfarçada em pose de artista incompreendido. E agora, agora ousas tratar-me como sombra incômoda presa na sola de teus sapatos gastos — sombra que arrastas pelas calçadas da tua fuga. Sim, tua fuga. Covarde, silenciosa, disfarçada de liberdade. Tu, rodeado por essa fauna esnobe de cabeças ocas que sorvem café frio enquanto discutem Nietzsche como se mastigassem o próprio céu. Tu, sempre tu: tentando convencer o mundo — e talv...

Conto: Anastácio

Olá, caros leitores e caríssimas leitoras! Como estão?  Hoje é dia de conto por aqui. Vem conferir!



Conto: Anastácio 


I


Esqueceste, não foi? Esqueceste que sou tua mulher. Pois então, assenta esse corpo fatigado e encara, com os olhos bem abertos, a sentença que te cabe. Sou aquela com quem tu selaste pacto diante do altar de uma igrejinha simplória— onde o amor, idiota e esperançoso, ainda ousava se vestir de domingo.

Eu, a que suportou tua ausência mesmo quando estavas presente; teus silêncios que transbordavam desculpas mal paridas; tua falta de norte disfarçada em pose de artista incompreendido.

E agora, agora ousas tratar-me como sombra incômoda presa na sola de teus sapatos gastos — sombra que arrastas pelas calçadas da tua fuga. Sim, tua fuga. Covarde, silenciosa, disfarçada de liberdade. Tu, rodeado por essa fauna esnobe de cabeças ocas que sorvem café frio enquanto discutem Nietzsche como se mastigassem o próprio céu.

Tu, sempre tu: tentando convencer o mundo — e talvez a ti mesmo — de que és indomável, inalcançável, superior às amarras da vida comum. Mas não passas de um homem pequeno, deitado em cama alheia, tentando apagar as pegadas da própria história.

Não me escandaliza tua ânsia por liberdade, nem teu desejo pueril de juventude reencenada em corpos novos, em vozes que ainda não conhecem tuas fraquezas. O que me indigna é tua fuga rasteira — a ausência que não se justifica, o silêncio que não tem coragem sequer de se vestir de despedida.

O que dói é tua negação das filhas que pariste comigo, como se pudessem ser varridas para debaixo do tapete das tuas novas promessas. Sandra te chama no escuro. Luana se recusa a lavar os cabelos porque apenas tu sabias secá-los com doçura.

E tu aí, bancando o homem renascido, como se a vida te devesse compreensão e a leveza fosse um direito teu, ainda que custe o peso nos ombros dos que ficam.

Diz logo. Quem é ela? Qual o nome da mulher que te chama de “amor” enquanto tuas filhas esquecem a cor dos teus olhos? Quantos anos tem? Já sabe da tua mania de contar mentiras como quem declama poesia? É bonita? É burra? Te admira?

Tu nunca foste homem de iniciativa. Precisas que a vida te empurre como se fosses folha seca — e agora, te vês mártir de uma história que tu mesmo engendraste com mãos sujas e coração covarde.

Olha bem: o estrago foi feito. E não com estardalhaço, mas com a frieza metódica de quem muda de canal num domingo qualquer. Não queres voltar? Pois bem. Mas se, ao menos, digno. Digno de uma linha, de um bilhete amarelado pela vergonha, mas verdadeiro.

Porque mesmo atolada na lama, a verdade ainda vale alguma coisa. É mais limpa que essa tua omissão fétida, que essa tua presença ausente, que fede à covardia de quem não ousa terminar o que começou.

Anastácio, escuta. Lê estas linhas como homem, não como vítima. Tu te vitimizas diante da minha dor como se eu fosse carrasca e tu, sacrificado numa cruz de louça estilhaçada e pranto acumulado. É risível.

Enquanto tu fugias da própria história, eu aqui me refazia — costurando o cotidiano com linhas de desespero e dignidade. Tu não fazes ideia da força que custa continuar. E ainda assim, ousas te ofender quando minha voz, enfim, treme a casa?

Tu sumiste por quase três meses. Voltaste com tua mansidão fingida, sentaste à mesa como quem retorna de um passeio breve, e então — entre um gole de café e outro — cuspiste tua nova epifania:

“Geovana é a mulher da minha vida.”

Geovana. Aquela que até ontem não tinha nem nome. Tu achaste mesmo que eu bateria palmas?

Tentei reagir, mas foste rápido no gatilho: teus discursos prontos sobre tua infância de arame farpado e mãe sangrando. Eu conheço essa ladainha. Já a ouvi inteira, de olhos molhados, acreditando que teu passado explicava tuas falhas. Mas não. Tu não estás nos libertando. Não és um redentor. És apenas um homem que foge. Um covarde em missão própria. E tua generosidade me ofende tanto quanto tua traição.

Tu saíste de casa e achaste insulto ser expulso? Meu caro, ofensa é o que tu fizeste com tua ausência.



II



Agora tudo fez sentido. Você pulou fora do barco e nos deixou afundar. Caiu fora da história que prometeu construir, da vida que jurou compartilhar. Quer seu mundinho limpo, sem passado, sem peso, só seu — um palco onde você é adulto solteiro, dono do próprio tempo, cercado de mulheres lindas e novas, de almas lavadas, sem cicatriz.

A verdade? Viramos uma lembrança podre da juventude que insiste em enterrar. Um tropeço, um erro incômodo na trilha que você imaginou para si mesmo — e agora tenta apagar com álcool barato e corpos que esquecem ao amanhecer.

Você virou as costas e raspou o que fomos da sua memória. Destruiu o que era nosso — pequeno, lascado, mas nosso. Quebrou a ilusão que sustentava a sua imagem e nos fez encarar o vazio: você, no fundo, era só uma invenção nossa.

E cá estamos: eu, Sandra, Luana. Três fantasmas esperando por alguém que não volta. Largadas, sem chão, sem teto, sem certezas. Enquanto você? Deve estar por aí, saciando desejos em corpos fáceis, abraçado a mentiras que sorriem sem esforço, vivendo o delírio do prazer sem conta.

Aí vem você com essa conversa fiada de querer “manter relações”. Relações? Com quem? Como? Quer ser pai de direito, enquanto joga fora tudo que fazia de você um homem? Quer cuidar das meninas sem mim, como se fossem bonecas REBORN para visitas de domingo?

Vá perguntar para elas. Olhe nos olhos delas — se tiver coragem. Sandra, que rodava em torno de você feito mariposa na lâmpada, agora tropeça no escuro da dúvida. Luana acha que a culpa foi dela, que errou tanto que você precisou fugir.

Você virou fumaça. E agora quer voltar como brisa leve? Saiba: minhas filhas são só minhas agora. Aquele pai? Morreu. Foi ilusão. E o que sobrou de você, não vou deixar contaminar o pouco que ainda posso salvar.

Tente se explicar para elas. Eu estarei aqui, observando. Mas não espere que eu deixe você bagunçar mais nada. Não com elas. Não de novo. Uma vez foi demais.

Não, você não é pai. Claro que não. Tudo ficou claro agora — o fim entre nós foi também o fim entre você e as meninas. Não venha com esse papo de “sou pai e quero continuar”. Você não quer nada. Nunca quis.

Você só queria se livrar de mim, delas, de tudo que lembrasse que a vida exige mais do que o teu espelho e teu prazer.

Toda essa conversa de “instituições”, “papéis”, “família”, é só verniz de covarde. Você nunca lutou por merda nenhuma. Só correu. Só existe quando alguém te segura. Mas eu não seguro mais nada.

Não sou tua muleta. Não sou tua culpa.

Não sou tua mulher.

E sabe o que é pior? Eu te perdoo. Não porque você merece. Mas porque o ódio cansa.

Vou continuar aqui. Com a casa fedendo a lembrança, com as contas empilhadas, com duas meninas que ainda acreditam que o mundo pode melhorar.

Mas presta atenção: não há conto de fadas. Só essa droga de vida que empurramos esperando a próxima tragédia. Ela virá. Sempre vem.

E se você for mesmo homem — pela primeira vez — olhe pra elas. Aguente o olhar. Aguente a rachadura.

Mas se fugir, Anastácio não volta. Desta vez, não há aviso. Só o mesmo silêncio que você deixou quando bateu a porta. O mesmo silêncio que agora te lembra quem você é: fraco.




É isso! Até a próxima!




Autoria: Luciano Otaciano 


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